Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

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Há um ano atrás

Álcool e calmantes fazem com que o meu cérebro funcione em uma frequência diferente e assim eu consigo abrir a minha mente e falar de um tempo que machuca o meu coração.

Há um ano atrás eu não desejava que o dia terminasse sem que eu me terminasse também. Há um ano atrás lençóis brancos me acolhiam e enfermeiras batiam na minha porta de 3h em 3h. Comprimidos esmagados dentro de seringas. Batimentos marcados no papel. Diuréticos e laxantes em caixas de lápis de cor. Segredos guardados por paredes cor de gelo.

Não foi o fim quando eu desejava que tivesse sido.
Eu não fui longe o suficiente.
Eu não matei o meu corpo.
Eu não morri de fome.
Eu não me matei.

Fantasmas sentavam a beira da minha cama de hospital e acariciavam os meus cabelos bagunçados, mas não diziam que tudo ficaria bem. Eles culpavam-me por não ter ido até o fim, por não ser o que eles eram.
Fantasmas me esperavam do outro lado.
Porém eu não segui a luz.
Desviei-me do caminho, dei meia volta no túnel da escuridão.
Eu abri olhos sem poder enxergar e acreditei em palavras que não eram minhas, em guias que desconheciam minhas angustias e não sabiam se eu realmente poderia sorrir.

Há um ano atrás eu fiz uma escolha quando e eu não soube o que escolher.
Eu não sabia quem era ou quem poderia ser. Eu ainda não sei quem sou, mas….
Há um ano atrás eu escolhi estar aqui.

CAMA DA HOSPITAL

Foto do hospital há um ano atrás

Sem revisões ou palavras rebuscadas: cá estou eu!

De cara lavada por lágrimas quentes e coração dilacerado pelo sentimento de falha, escrevo frases que demonstram o profundo sentimento de frustração que toma conta do meu ser.

Aceito com angustia que o espelho que não é um inimigo, nunca foi. A culpa da imagem que tortura os
meus olhos é exclusivamente minha. A responsável por ultrapassar os limites sou eu.
Eu cheguei aos 40kg. Cheguei aos 38kg. Aos 36kg.
Porém, será que eu cheguei ao meu limite?

No hospital decorei palavras de  superação. Decorei mentiras auspiciosas e tentei convencer-me de que aquilo é que era o certo apenas para livrar-me do quarto branco e dos intermináveis litros de soro.
Entretanto, nenhuma mentira é eterna. A realidade atingiu-me com tamanha brutalidade que meus pensamentos tornaram-se incertos e o famoso “quem sou eu?” passou a preencher o meu vazio interior com com perguntas para as quais não há quaisquer respostas sensatas.
Defini-me através das consequências das minhas atitudes.

Quando eu deixo meu corpo deteriorar-se pela inanição, sou aquela a qual a fome domina. A garota dos ossos saltados. Aquela que o vento leva com seu sopro fraco. Sou a que morrerá devido a carências físicas e emocionais simplesmente para sentir que é alguém.
Contudo, quando como não sei quem sou. Alimentar o meu corpo é desnutrir minha alma.

Viva ou morta, preciso de uma identidade para calar os fantasmas das perguntas fundamentais sobre o que é a vida.
Para calar a minha mente antes que as consequências deixem de prejudicar somente a mim.

Sentimentos da Recuperação

11/12/2015  eu consegui comer 1700 calorias.
Me sinto horrível e tudo dói. A recuperação exige mais de mim do que continuar a emagrecer.

Voltei a tomar a medicação para depressão. Os ataques de pânico diminuíram, assim como eu me sinto sentimentalmente diminuída. É certo esse insignificância?
Ou isso é um tipo de alegria que já não sei identificar?

Tenho medo desse mundo que se expande dentro de mim. Medo de quem eu sou. De quem eu posso ser.

(OBS: Durante a semana respondo aos comentários, obrigada a todos, li comentários tão carinhosos e bonitos que mesmo durante toda essa turbulência, o meu coração sorriu)

Eu deixei que a comida doesse, pois eu precisava da dor. Eu deixei que o desconforto se tornasse o sabor do meu prato, pois eu precisava acreditar que estava cometendo um erro. Eu deixei que as 48h em que o meu corpo esteve vazio, livre, fossem preenchidas por calorias e arrependimentos. Eu deixei a culpa tomar o meu lugar e comandar os meus passos.

Pés saltitantes e pernas cansadas. Eu tranco a porta do banheiro e o meu mundo escurece, estremece.
Garotas cadavéricas dançam em minha mente: apenas pele, ossos e harmonia.

 

Decepçao

O medo da verdade faz com que eu me afaste da balança.
Sinto ter falhado, mesmo sem que haja alguma confirmação além da gordura que vejo através de qualquer espelho. As roupas largam já não são mais símbolos de conquista e as minhas mãos arranhadas falham em ser o motivo das minhas pernas finas. A estreita relaçao criada com a mia nos últimos meses não foi o suficiente para suprir o sentimento de limpeza e leveza conquistado com a ana. Meu corpo é um templo abandonado pelos sentimentos bons e seus enfeites consistem na podridão da comida fixada no meu interior: restos e restos de mim mesma, toneladas de decepção.

O limite

Unir-se aos inimigos é algo inteligente, logo, faço da fome a minha melhor aliada.

O novo psiquiatra foi melhor que o esperado e deu-me a resposta mais preciosa: o peso mínimo que posso ter sem que hajam complicações sérias ou alterações neurológicas que podem render-me algum tipo de intervenção desagradável.

São os sonhados 40kg o limite do meu corpo. No entanto, eu não os quero. 40kg ainda é demais. 40kg ainda é desespero. 40kg ainda é tristeza. 40kg ainda doem. Meu corpo suporta 40kg, minha mente, não. Pelo menos, não mais. Ela não os suporta quando eu me aproximo deles, quando eu estou quase lá, quando faltam apenas algumas gramas ou alguns dias sem comer.

O limite da minha mente é um número menor do que o limite do meu corpo. O limite da minha mente sempre diminui. O limite da minha mente são ossos saltados, dedos arranhados e olhos famintos. O limite da minha mente não existe.