Quando alguém chega ao fim

[resumo dos últimos meses]

Eu parei de escrever porque meus braços estavam cansados e tremiam, minhas pernas deixaram de ser o suficiente para me manter em pé durante vários dias e a minha vida se tornou escuridão. Foram muitos os monólogos mentais que eu gostaria de ter passado para o papel, muitos os pensamentos que mereciam anotações antes que eu dormisse e os esquecesse para sempre ou que as alucinações do tempo em que meus olhos sequer conseguiam se fechar se confundissem com o mundo real. Foram tempos difíceis para o corpo e para a alma. A assombração de estar preso em si mesmo.
Por momentos, achei que jamais me recuperaria, que a minha vida se dividiria entre a cama e a banheira morna e meus olhos continuariam pedindo por socorro sem que alguém pudesse realmente entender que por trás daquele corpo que tremia incessantemente com qualquer som, eu estava sumindo.
Não sei qual período dessa história foi o pior: Quando eu não conseguia acordar ou quando eu não conseguia dormir. Ambas as situações duravam por dias e não havia escapatória, eu estava enlouquecendo com o mundo tentando me convencer de que eu ficaria bem, de que tudo era normal.
Contudo, eu ouvia sons que ninguém mais conseguia ouvir, vozes me chamando por todos os lados, vultos passando por dentro do meu corpo, frio incessante em dias de sol e o medo constante transformando a existência em agonia. Ele (o medo) estava sempre ali me fazendo suar frio, me deixando mais fraca, me sugando. Dias sem comer, dias sem tomar banho, me tornei bagunça presa numa solidão inacabável. Solidão tal que tomou parte de mim e então eu me esqueci de todas as palavras que queria dizer. As lágrimas caiam, mas não falavam por mim.
Minhas mãos ainda tremem e em alguns dias eu me arrisco a comer, a sair da cama-prisão, a ver o mundo. Nesses dias eu preciso de muitos remédios para enfrentar a vida e aceitar tudo o que foi tomado de mim por uma escuridão que ainda assombra minha alma. Minhas pernas estão mais fortes e eu já consigo tomar banho em pé, mas saio ofegante do chuveiro. Porém as palavras e as memórias pela metade, confusas e desordenadas, ainda me torturam, noite após noite, pílula após pílula, até um fim precoce caso eu não descubra e concerte o começo.

 

Agradeço pelo apoio de todos e responderei aos comentários em breve.

Descrição da ansiedade que me prende

A ansiedade me atormenta, me destrói de dentro para fora, me anula e me prende.

Eu tento beber água e respirar fundo, mas ela continua ali, junto a uma depressão que tenta se esconder atrás de sintomas errados.

Eu tranco as portas e corro para a cama protetora, meu costumeiro refúgio. Tento me esconder debaixo dos lençóis e cobertores, mas não me escondo delas, apenas do mundo a minha volta.

As vezes rezo por horas até tudo acabar, as vezes em durmo em meio a um choro abafado e ao medo de seguir em frente e continuar confinada ao meu casulo pseudo protetor pelo resto dos meus dias.

Porém, ao acordar, com o peito já mais leve e os pensamentos superficialmente ordenados, lembro-me que a vida é um ciclo e que os momentos ruins também chegam ao fim.

Levanto da minha cama com as pernas ainda trêmulas e o restante do medo que sobrou da noite anterior. Sento próximo a janela olho para o céu cinza e sei que por trás dele o sol continua ali, assim como eu também continuarei.

Os dias claros chegarão novamente e o medo dirá adeus.

Um capítulo de Agosto

Sentada na minha cama em um domingo a tarde, vazio e cinza, meus pensamentos fluem entre passado, presente e futuro. Recrio a minha história de diversas maneiras, quase todas com um final feliz. A parte trágica sempre mantenho, as vezes me faz chorar, mas acho que um drama é essencial.
São apenas duas horas e o meu cinzeiro com o rosto da Marylin Monroe já está cheio. Acho que esse é o meu cinzeiro preferido, inclusive porque não lembro de nenhum outro e um amigo me fez perceber como era decadente usar xícaras e canecas ainda com uma sobra de café ou coca-cola. Pessoas bem resolvidas tem um cinzeiro. Parece mais adulto, mais sério.

Aliás, faz muito tempo que sinto que sou adulta. Todas essas cobranças e responsabilidades. As saídas a noite. O sexo. E as drogas, muitas delas. São a melhor companhia para o final de semana. Me fazem acordar, ficar feliz, ficar calma, dormir. Seguindo essa rotina a vida até parece algo fácil, suportável.

A playlist de hoje se divide entre Echo and the Bunnymen e The Cure. São as minhas bandas preferidas para ficar chapada. Trazem a tona algo como uma nostalgia do que não foi vivido, como aqueles dias nos anos 80 que só existem na minha mente. Se ao morrer eu pudesse escolher qualquer época para voltar, nasceria nos anos 60 só para ter idade para ir aos shows das bandas que eu escuto hoje quando elas estavam no inicio do caminho para a fama.

O meu pensamento mais frequente quando estou chapada é sobre o passado. Sempre me pergunto se voltar no tempo seria algo mais no estilo de Efeito Borboleta ou De Volta para Futuro. Gosto de imaginar todas as consequências dessas viagens. Queria um livro com todas as linhas de tempo imagináveis para saber o que seria da minha vida se eu tivesse dito sim a todas as chances que tive de viver algo novo.

Como uma coisa leva a outra, o pensamento sobre filmes me fez lembrar que comecei a assistir pela 10 vez Garota Interrompida. Esse também é dos meus favoritos. Fico perdida entre ser Susanna, Lisa ou Daisy. Acho que sou a fusão das três, mas dependendo do dia sou uma só.
Hoje sou Susana, a garotinha pálida de olhar perdido coberta por fumaça do cigarro esquecido no meio dos dedos, fingindo descansar em um hospital psiquiátrico. Sexo casual em 1960 não é para boas moças. Boa história para escritores.

Ainda não decidi se nos meus dias mais perigosos sou Lisa ou Daisy. As consequências de ser qualquer uma delas é devastadora. No final são três garotas auto destrutivas, reféns dos próprios pensamentos, inadequadas para a sociedade. Doentes por sentirem demais.

Contudo, não vejo tanta diferença na época atual. Valium, Diazepam, Xanax, Rivotril, Ritalina. Tantas formas de manter a calma e ver o mundo um pouco mais feliz. Pílulas de convívio social, ditando em diplomas quem está apto para a vida comum. Tem que saber contar boas mentiras no bar e fingir puritanismo nos almoços de domingos. A menos que você seja homem, então pode contar mentiras o todo tempo. Se elas envolverem mulheres, melhor ainda. Todos vão acreditar.
Num piscar e olhos é noite e eu me perdi nas horas. Meu cigarro queimou e apagou no cinzeiro antes que eu o tragasse, meu café esfriou. Até o clima esfriou e eu continuo vestindo apenas a mesma camiseta velha dos Rolling Stones. Devo tê-la vestido na sexta feira quando decidi que nada me tiraria de casa.

Parte de mim quer acender uma luz, preparar outro café e colocar alguma coisa no microondas. Comida congelada é a melhor opção, a menos que tenha sobrado um pedaço de pizza da noite passada. Eu sempre digo que irei me alimentar melhor, mas a noite chega e eu me acabo no junkie food. Tento aliviar a consciência lembrando que pelo menos parei de comer carnes. Ser vegetariana é um começo.

Queria voltar a fazer dietas, mas estou me controlando porque reconheço que nunca sei a hora de parar. Quanto mais vejo resultado, mais longe quero ir. Tudo começa comigo selecionando o que é comida saudável e depois reduzindo a 1000kcal por dia até chegar em 0, então fico por quase uma semana sem comer. Da última vez fiquei tão paranóica que limitava o meu consumo de água a goles pequenos e em seguida tomava diuréticos. Eu gosto de como sinto que consigo controlar tudo quando estou presa na ilusão de dominar o corpo.

Se não fosse pelo meu computador, eu não enxergaria um palmo na minha frente. Meu quarto com uma pia e uma geladeira no centro da cidade é o esconderijo ideal de fantasmas. Em algumas noites nós até conversamos. Acho que morrer te faz entender algumas coisas que não são tão comuns quando se está vivo. Eu já morri uma vez. Foram todos aqueles comprimidos, sabe? No entanto, não posso sair por ai contando sobre essa desventura. Ninguém acreditaria em mim e achariam que sou louca.

É necessário fingir para poder usufruir de algumas vantagens que a gente tem quando cresce e passa a cuidar sozinho da próprio vida. Poder ter o meu próprio estoque de remédios e um pé de maconha no meu quarto/cozinha/sala é uma delas. A desvantagem é ter que pagar as próprias contas, parece que surge uma nova a cada semana e cada vez maior.

Esqueci de comentar antes, mas hoje é dia dos pais e isso me faz não querer falar mais nada por hoje. Deixo a ideia da luz, do café e do pedaço de pizza de lado e engulo todos os remédios que estão jogados aos pés da cama. Programo o despertador para as 5h da manhã, imaginando ter tempo de fazer ao acordar tudo o que deveria ter feito hoje. Meus dias são esse monte de procrastinações e textos sem muito nexo.

Maio 2015 – Março 2016

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Visões equivocadas por trás dos meus olhos embaralhados.
Imagem quase turva.
Abandonada.

Há um ano atrás

Álcool e calmantes fazem com que o meu cérebro funcione em uma frequência diferente e assim eu consigo abrir a minha mente e falar de um tempo que machuca o meu coração.

Há um ano atrás eu não desejava que o dia terminasse sem que eu me terminasse também. Há um ano atrás lençóis brancos me acolhiam e enfermeiras batiam na minha porta de 3h em 3h. Comprimidos esmagados dentro de seringas. Batimentos marcados no papel. Diuréticos e laxantes em caixas de lápis de cor. Segredos guardados por paredes cor de gelo.

Não foi o fim quando eu desejava que tivesse sido.
Eu não fui longe o suficiente.
Eu não matei o meu corpo.
Eu não morri de fome.
Eu não me matei.

Fantasmas sentavam a beira da minha cama de hospital e acariciavam os meus cabelos bagunçados, mas não diziam que tudo ficaria bem. Eles culpavam-me por não ter ido até o fim, por não ser o que eles eram.
Fantasmas me esperavam do outro lado.
Porém eu não segui a luz.
Desviei-me do caminho, dei meia volta no túnel da escuridão.
Eu abri olhos sem poder enxergar e acreditei em palavras que não eram minhas, em guias que desconheciam minhas angustias e não sabiam se eu realmente poderia sorrir.

Há um ano atrás eu fiz uma escolha quando e eu não soube o que escolher.
Eu não sabia quem era ou quem poderia ser. Eu ainda não sei quem sou, mas….
Há um ano atrás eu escolhi estar aqui.

CAMA DA HOSPITAL

Foto do hospital há um ano atrás

Eu deixei que a comida doesse, pois eu precisava da dor. Eu deixei que o desconforto se tornasse o sabor do meu prato, pois eu precisava acreditar que estava cometendo um erro. Eu deixei que as 48h em que o meu corpo esteve vazio, livre, fossem preenchidas por calorias e arrependimentos. Eu deixei a culpa tomar o meu lugar e comandar os meus passos.

Pés saltitantes e pernas cansadas. Eu tranco a porta do banheiro e o meu mundo escurece, estremece.
Garotas cadavéricas dançam em minha mente: apenas pele, ossos e harmonia.