Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

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Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.

Descrição da ansiedade que me prende

A ansiedade me atormenta, me destrói de dentro para fora, me anula e me prende.

Eu tento beber água e respirar fundo, mas ela continua ali, junto a uma depressão que tenta se esconder atrás de sintomas errados.

Eu tranco as portas e corro para a cama protetora, meu costumeiro refúgio. Tento me esconder debaixo dos lençóis e cobertores, mas não me escondo delas, apenas do mundo a minha volta.

As vezes rezo por horas até tudo acabar, as vezes em durmo em meio a um choro abafado e ao medo de seguir em frente e continuar confinada ao meu casulo pseudo protetor pelo resto dos meus dias.

Porém, ao acordar, com o peito já mais leve e os pensamentos superficialmente ordenados, lembro-me que a vida é um ciclo e que os momentos ruins também chegam ao fim.

Levanto da minha cama com as pernas ainda trêmulas e o restante do medo que sobrou da noite anterior. Sento próximo a janela olho para o céu cinza e sei que por trás dele o sol continua ali, assim como eu também continuarei.

Os dias claros chegarão novamente e o medo dirá adeus.

Há um ano atrás

Álcool e calmantes fazem com que o meu cérebro funcione em uma frequência diferente e assim eu consigo abrir a minha mente e falar de um tempo que machuca o meu coração.

Há um ano atrás eu não desejava que o dia terminasse sem que eu me terminasse também. Há um ano atrás lençóis brancos me acolhiam e enfermeiras batiam na minha porta de 3h em 3h. Comprimidos esmagados dentro de seringas. Batimentos marcados no papel. Diuréticos e laxantes em caixas de lápis de cor. Segredos guardados por paredes cor de gelo.

Não foi o fim quando eu desejava que tivesse sido.
Eu não fui longe o suficiente.
Eu não matei o meu corpo.
Eu não morri de fome.
Eu não me matei.

Fantasmas sentavam a beira da minha cama de hospital e acariciavam os meus cabelos bagunçados, mas não diziam que tudo ficaria bem. Eles culpavam-me por não ter ido até o fim, por não ser o que eles eram.
Fantasmas me esperavam do outro lado.
Porém eu não segui a luz.
Desviei-me do caminho, dei meia volta no túnel da escuridão.
Eu abri olhos sem poder enxergar e acreditei em palavras que não eram minhas, em guias que desconheciam minhas angustias e não sabiam se eu realmente poderia sorrir.

Há um ano atrás eu fiz uma escolha quando e eu não soube o que escolher.
Eu não sabia quem era ou quem poderia ser. Eu ainda não sei quem sou, mas….
Há um ano atrás eu escolhi estar aqui.

CAMA DA HOSPITAL

Foto do hospital há um ano atrás

Na própria Escuridão

Olho para os papéis que dizem claramente: anorexia nervosa. Eles mentem, esse não é o problema. Eu posso morrer de fome e este nunca será o problema. No máximo, uma leve consequência.

O problema está na dor que não acaba, nas palavras que nunca são ditas, nos segredos que não se apagam da memória. O problema está onde ninguém pode ver.

Eu tentei virar-me do avesso para demonstrar o que me corrói, procurei por uma saída em uma nova prisão, deixei os pensamentos soltos e me perdi na minha própria escuridão.

Não existem mais dias azuis, mas eu ainda posso sorrir.

Sem revisões ou palavras rebuscadas: cá estou eu!

De cara lavada por lágrimas quentes e coração dilacerado pelo sentimento de falha, escrevo frases que demonstram o profundo sentimento de frustração que toma conta do meu ser.

Aceito com angustia que o espelho que não é um inimigo, nunca foi. A culpa da imagem que tortura os
meus olhos é exclusivamente minha. A responsável por ultrapassar os limites sou eu.
Eu cheguei aos 40kg. Cheguei aos 38kg. Aos 36kg.
Porém, será que eu cheguei ao meu limite?

No hospital decorei palavras de  superação. Decorei mentiras auspiciosas e tentei convencer-me de que aquilo é que era o certo apenas para livrar-me do quarto branco e dos intermináveis litros de soro.
Entretanto, nenhuma mentira é eterna. A realidade atingiu-me com tamanha brutalidade que meus pensamentos tornaram-se incertos e o famoso “quem sou eu?” passou a preencher o meu vazio interior com com perguntas para as quais não há quaisquer respostas sensatas.
Defini-me através das consequências das minhas atitudes.

Quando eu deixo meu corpo deteriorar-se pela inanição, sou aquela a qual a fome domina. A garota dos ossos saltados. Aquela que o vento leva com seu sopro fraco. Sou a que morrerá devido a carências físicas e emocionais simplesmente para sentir que é alguém.
Contudo, quando como não sei quem sou. Alimentar o meu corpo é desnutrir minha alma.

Viva ou morta, preciso de uma identidade para calar os fantasmas das perguntas fundamentais sobre o que é a vida.
Para calar a minha mente antes que as consequências deixem de prejudicar somente a mim.

Ano Novo, Dietas Velhas

O final de ano foi devastador e quilos que haviam partido, voltaram.
Os ciclos de NF de 24, 36,48 e 60 horas foram desperdiçados com excessos que eu não sabia que o meu corpo poderia aguentar. A mia foi companheira automática: sem esforços! Porém não foi o suficiente.

46kg novamente. Outra vez desperdicei esforços e vida. Joguei fora as pequenas conquistas, enchi pratos de desilusões e meu corpo voltou ao caos.

As lâminas chamam-me incansavelmente, mas ainda resisto. Contudo, sinto falta da paz:
Ossos saltados, corpo vazio, sangue nas palavras e nas mãos.

Dietas e metas antigas transformam meu “ano novo” em nostalgia e dor. Feliz 2015.

 

(OBS: Eu prometo que essa semana eu respondo todos os comentários)