Descrição da ansiedade que me prende

A ansiedade me atormenta, me destrói de dentro para fora, me anula e me prende.

Eu tento beber água e respirar fundo, mas ela continua ali, junto a uma depressão que tenta se esconder atrás de sintomas errados.

Eu tranco as portas e corro para a cama protetora, meu costumeiro refúgio. Tento me esconder debaixo dos lençóis e cobertores, mas não me escondo delas, apenas do mundo a minha volta.

As vezes rezo por horas até tudo acabar, as vezes em durmo em meio a um choro abafado e ao medo de seguir em frente e continuar confinada ao meu casulo pseudo protetor pelo resto dos meus dias.

Porém, ao acordar, com o peito já mais leve e os pensamentos superficialmente ordenados, lembro-me que a vida é um ciclo e que os momentos ruins também chegam ao fim.

Levanto da minha cama com as pernas ainda trêmulas e o restante do medo que sobrou da noite anterior. Sento próximo a janela olho para o céu cinza e sei que por trás dele o sol continua ali, assim como eu também continuarei.

Os dias claros chegarão novamente e o medo dirá adeus.

Há um ano atrás

Álcool e calmantes fazem com que o meu cérebro funcione em uma frequência diferente e assim eu consigo abrir a minha mente e falar de um tempo que machuca o meu coração.

Há um ano atrás eu não desejava que o dia terminasse sem que eu me terminasse também. Há um ano atrás lençóis brancos me acolhiam e enfermeiras batiam na minha porta de 3h em 3h. Comprimidos esmagados dentro de seringas. Batimentos marcados no papel. Diuréticos e laxantes em caixas de lápis de cor. Segredos guardados por paredes cor de gelo.

Não foi o fim quando eu desejava que tivesse sido.
Eu não fui longe o suficiente.
Eu não matei o meu corpo.
Eu não morri de fome.
Eu não me matei.

Fantasmas sentavam a beira da minha cama de hospital e acariciavam os meus cabelos bagunçados, mas não diziam que tudo ficaria bem. Eles culpavam-me por não ter ido até o fim, por não ser o que eles eram.
Fantasmas me esperavam do outro lado.
Porém eu não segui a luz.
Desviei-me do caminho, dei meia volta no túnel da escuridão.
Eu abri olhos sem poder enxergar e acreditei em palavras que não eram minhas, em guias que desconheciam minhas angustias e não sabiam se eu realmente poderia sorrir.

Há um ano atrás eu fiz uma escolha quando e eu não soube o que escolher.
Eu não sabia quem era ou quem poderia ser. Eu ainda não sei quem sou, mas….
Há um ano atrás eu escolhi estar aqui.

CAMA DA HOSPITAL

Foto do hospital há um ano atrás

Na própria Escuridão

Olho para os papéis que dizem claramente: anorexia nervosa. Eles mentem, esse não é o problema. Eu posso morrer de fome e este nunca será o problema. No máximo, uma leve consequência.

O problema está na dor que não acaba, nas palavras que nunca são ditas, nos segredos que não se apagam da memória. O problema está onde ninguém pode ver.

Eu tentei virar-me do avesso para demonstrar o que me corrói, procurei por uma saída em uma nova prisão, deixei os pensamentos soltos e me perdi na minha própria escuridão.

Não existem mais dias azuis, mas eu ainda posso sorrir.

Sem revisões ou palavras rebuscadas: cá estou eu!

De cara lavada por lágrimas quentes e coração dilacerado pelo sentimento de falha, escrevo frases que demonstram o profundo sentimento de frustração que toma conta do meu ser.

Aceito com angustia que o espelho que não é um inimigo, nunca foi. A culpa da imagem que tortura os
meus olhos é exclusivamente minha. A responsável por ultrapassar os limites sou eu.
Eu cheguei aos 40kg. Cheguei aos 38kg. Aos 36kg.
Porém, será que eu cheguei ao meu limite?

No hospital decorei palavras de  superação. Decorei mentiras auspiciosas e tentei convencer-me de que aquilo é que era o certo apenas para livrar-me do quarto branco e dos intermináveis litros de soro.
Entretanto, nenhuma mentira é eterna. A realidade atingiu-me com tamanha brutalidade que meus pensamentos tornaram-se incertos e o famoso “quem sou eu?” passou a preencher o meu vazio interior com com perguntas para as quais não há quaisquer respostas sensatas.
Defini-me através das consequências das minhas atitudes.

Quando eu deixo meu corpo deteriorar-se pela inanição, sou aquela a qual a fome domina. A garota dos ossos saltados. Aquela que o vento leva com seu sopro fraco. Sou a que morrerá devido a carências físicas e emocionais simplesmente para sentir que é alguém.
Contudo, quando como não sei quem sou. Alimentar o meu corpo é desnutrir minha alma.

Viva ou morta, preciso de uma identidade para calar os fantasmas das perguntas fundamentais sobre o que é a vida.
Para calar a minha mente antes que as consequências deixem de prejudicar somente a mim.

Ano Novo, Dietas Velhas

O final de ano foi devastador e quilos que haviam partido, voltaram.
Os ciclos de NF de 24, 36,48 e 60 horas foram desperdiçados com excessos que eu não sabia que o meu corpo poderia aguentar. A mia foi companheira automática: sem esforços! Porém não foi o suficiente.

46kg novamente. Outra vez desperdicei esforços e vida. Joguei fora as pequenas conquistas, enchi pratos de desilusões e meu corpo voltou ao caos.

As lâminas chamam-me incansavelmente, mas ainda resisto. Contudo, sinto falta da paz:
Ossos saltados, corpo vazio, sangue nas palavras e nas mãos.

Dietas e metas antigas transformam meu “ano novo” em nostalgia e dor. Feliz 2015.

 

(OBS: Eu prometo que essa semana eu respondo todos os comentários)

Persistência

Eu quero que a fome desapareça para que eu possa seguir em frente. Eu quero que a  fome desapareça para que eu possa ter outros pensamentos em minha cabeça. Eu quero que a fome desapareça para que eu possa, finalmente, viver.
Eu quero que fome desapareça sem que eu precise comer.

Minha garganta dói, da mesma forma que meus olhos, ossos, e estômago. A toxidade do cheiro das minhas comidas preferidas tem efeito alucinógeno sobre mim, sobre todos os meus sentidos. Eu me imagino rodeada pelos melhores doces, pelas melhores frutas, por hambúrgueres e batatas fritas. Eu sinto, inclusive, a textura de todos eles se desafazendo e tornando-me mais suja. Eu sinto a gordura nos meus dedos, nos meus lábios, no meu estômago. Eu sinto nojo de desejar qualquer coisa que me alimente.

Da mesma forma, eu sinto nojo do que eu vejo no meu corpo: quilos de gorduras escondendo o meu verdadeiro eu. Quilos de gordura esmagando os meus ossos. Quilos de gordura afogando a minha vontade de viver.

No entanto, o meu peso torna-se cada vez mais contraditório em relação ao que os meus olhos podem enxergar. A conquista -novamente- dos 42kg não trouxe satisfação. Trouxe-me apenas olhos mais abertos, mais atentos as imperfeições do meu corpo. Trouxe-me o senso de urgência e o medo de que cada caloria torne-se mais um quilo dentro de mim.

Eu estou cansada. Eu estou com fome. Mas eu não vou desistir.

Meta 01: 42kg  (OK)
Meta 02: 40kg – Prazo: 26/11
Meta final: 38kg – Prazo: 10/12

Desdém

Quando o peso aumenta, a vida diminui.
Podem ser poucos kgs, a numeração da calça pode nao mudar e as pessoas podem continuar dizendo, incansavelmente, que você emagreceu demais. Nada disso importa.
Nunca importa como os outros te veem quando a balança mostra números que lhe parecem altos demais, números que falam em códigos que você nao soube cumprir com as próprias promessas, números opressivos e impiedosos.
Nada -além do peso- importa quando você não pode se amar. A vida não importa.