Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.

Anúncios

Capsulas de paz

Eu apelei para o socorro em forma de capsulas porque minha mente estava se dissolvendo na culpa que me envolve e me atormenta. Estou presa e paralisada no tempo, repetindo mentalmente as mesmas frases e revivendo os mesmos sentimentos. São as mesmas dores e as mesmas lágrimas. A intensidade não diminui. O loop é infinito.

O prato continua cheio e eu me mantenho vazia. Será esta a solução? Não há fuga.
Eu não posso abandonar o que me move, o que me salva, o que sou. Minha luz no fim do túnel é uma chama apagada pois desviei-me da rota para seguir um coração que não quer mais bater.

Eu sei: Não há sentido naquilo que insisto em recordar.
Porém, o único refugio capaz de bloquear as memórias que me torturam é aquele que tortura o meu corpo, que debilita a minha mente.

É a muralha da fome que afasta os fantasmas sádicos que se alimentam da minha dor.

Quando meus olhos se fecham eles ressurgem em meio a escuridão para lembrar-me de que o passado estará sempre presente. Nós revivemos as mesmas cenas. Eu sou frágil e eles ditam regras.
Meu travesseiro amanhece molhado.
Eu acordo com medo.

Contudo, hoje um sono profundo virá para me salvar.
Um sono escuro, sem rostos e sem acusações, um sono em silêncio. Por uma noite, uma dose de paz.