Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

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Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.