Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

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Maio 2015 – Março 2016

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Visões equivocadas por trás dos meus olhos embaralhados.
Imagem quase turva.
Abandonada.

Há um ano atrás

Álcool e calmantes fazem com que o meu cérebro funcione em uma frequência diferente e assim eu consigo abrir a minha mente e falar de um tempo que machuca o meu coração.

Há um ano atrás eu não desejava que o dia terminasse sem que eu me terminasse também. Há um ano atrás lençóis brancos me acolhiam e enfermeiras batiam na minha porta de 3h em 3h. Comprimidos esmagados dentro de seringas. Batimentos marcados no papel. Diuréticos e laxantes em caixas de lápis de cor. Segredos guardados por paredes cor de gelo.

Não foi o fim quando eu desejava que tivesse sido.
Eu não fui longe o suficiente.
Eu não matei o meu corpo.
Eu não morri de fome.
Eu não me matei.

Fantasmas sentavam a beira da minha cama de hospital e acariciavam os meus cabelos bagunçados, mas não diziam que tudo ficaria bem. Eles culpavam-me por não ter ido até o fim, por não ser o que eles eram.
Fantasmas me esperavam do outro lado.
Porém eu não segui a luz.
Desviei-me do caminho, dei meia volta no túnel da escuridão.
Eu abri olhos sem poder enxergar e acreditei em palavras que não eram minhas, em guias que desconheciam minhas angustias e não sabiam se eu realmente poderia sorrir.

Há um ano atrás eu fiz uma escolha quando e eu não soube o que escolher.
Eu não sabia quem era ou quem poderia ser. Eu ainda não sei quem sou, mas….
Há um ano atrás eu escolhi estar aqui.

CAMA DA HOSPITAL

Foto do hospital há um ano atrás

Na própria Escuridão

Olho para os papéis que dizem claramente: anorexia nervosa. Eles mentem, esse não é o problema. Eu posso morrer de fome e este nunca será o problema. No máximo, uma leve consequência.

O problema está na dor que não acaba, nas palavras que nunca são ditas, nos segredos que não se apagam da memória. O problema está onde ninguém pode ver.

Eu tentei virar-me do avesso para demonstrar o que me corrói, procurei por uma saída em uma nova prisão, deixei os pensamentos soltos e me perdi na minha própria escuridão.

Não existem mais dias azuis, mas eu ainda posso sorrir.

Ano Novo, Dietas Velhas

O final de ano foi devastador e quilos que haviam partido, voltaram.
Os ciclos de NF de 24, 36,48 e 60 horas foram desperdiçados com excessos que eu não sabia que o meu corpo poderia aguentar. A mia foi companheira automática: sem esforços! Porém não foi o suficiente.

46kg novamente. Outra vez desperdicei esforços e vida. Joguei fora as pequenas conquistas, enchi pratos de desilusões e meu corpo voltou ao caos.

As lâminas chamam-me incansavelmente, mas ainda resisto. Contudo, sinto falta da paz:
Ossos saltados, corpo vazio, sangue nas palavras e nas mãos.

Dietas e metas antigas transformam meu “ano novo” em nostalgia e dor. Feliz 2015.

 

(OBS: Eu prometo que essa semana eu respondo todos os comentários)

Recomeço

Porta trancada, chuveiro ligado, música alta e sangue sob meus dedos: sensação de dever cumprido.
Estou limpa dos meus erros, das minhas falhas. Estou limpa -por enquanto.

Novamente o ciclo de inicia, novamente é mais fácil do que na tentativa anterior.

Já não existe mais medo, porém está ficando tarde. O tempo não é eterno e eu preciso corrigir os meus erros. A fraqueza do meu corpo será a força da minha mente.

Santa mia.