Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

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Eu deixei que a comida doesse, pois eu precisava da dor. Eu deixei que o desconforto se tornasse o sabor do meu prato, pois eu precisava acreditar que estava cometendo um erro. Eu deixei que as 48h em que o meu corpo esteve vazio, livre, fossem preenchidas por calorias e arrependimentos. Eu deixei a culpa tomar o meu lugar e comandar os meus passos.

Pés saltitantes e pernas cansadas. Eu tranco a porta do banheiro e o meu mundo escurece, estremece.
Garotas cadavéricas dançam em minha mente: apenas pele, ossos e harmonia.

 

Recomeçar

Depois de 36h de felicidade e leveza, novamente o exagero, seguido de desespero e frustração. Os cortes fazem falta: a dor acalma a alma. Porém eu resisto e as laminas permanecem guardadas.

Os velhos desafios ressurgem e a vontade de vence-los é cada vez maior. Se já fui forte uma vez, posso ser novamente. Posso inclusive ser melhor. E serei.

72h é o próximo objetivo. 72h apenas para recomeçar.

Desdém

Quando o peso aumenta, a vida diminui.
Podem ser poucos kgs, a numeração da calça pode nao mudar e as pessoas podem continuar dizendo, incansavelmente, que você emagreceu demais. Nada disso importa.
Nunca importa como os outros te veem quando a balança mostra números que lhe parecem altos demais, números que falam em códigos que você nao soube cumprir com as próprias promessas, números opressivos e impiedosos.
Nada -além do peso- importa quando você não pode se amar. A vida não importa.