Morte em vida

Assim de longe percebo que tudo estava bem quando eu ainda levantava da cama, mesmo que com o objetivo de perder todo o peso do meu corpo até morrer, gastando uma energia que não era minha ao fingir que a razão não era essa, mesmo que fosse. Mesmo que eu tentasse me convencer de outras -possíveis- verdades.

Hoje sequer me movo. Nada está bem.

Minha vida tem se tornado escura dentro do meu quarto sem luz, tem sido silêncio e lágrimas compondo um choro tão vazio quanto triste.

Desconheço os dias da semana, do mês. Nunca sei se são 2h da manhã ou da tarde, não há importância em saber. 

A descrição que se parece com um dia de domingo azul escuro, daqueles em que a solidão se mistura à um tédio de tamanho monumental, nada mais é do que a realidade em que me encontro.

Além  da dor que assola meu peito e do sufoco do montante de cobertas que escondem meu corpo calejado pelo antigo excesso de sentimentos, um resquício de mim, intensa e alegre ainda permanece a sentir. É pouco, mas está aqui.

Entretanto, estou cansada de sentir. De me doer atrás de esconderijos de ossos, de projetar estranhos sorrisos em meu rosto a disfarçar a apatia, de tentar viver uma vida já morta. 

Perdida em algum lugar dentro dessa escuridão, abro e fecho meus olhos só para perceber se há movimento, é assim que sei que meu corpo ainda está aqui e que, de certa forma, eu permaneço nele. No mais, aguardo. 

Aguardo, aguardo e aguardo. Todos sabem disso. Todos veem isso.  Ninguém acredita que é realmente isso.  Contudo, afirmo: é! Sempre foi. 

Aliás, eu já fui, apenas -estranhamente- ainda estou aqui.

Ensaios de outras vidas

Eu posso te ver e gritar o teu nome, mas é o silêncio que domina o ambiente. Minha voz é muda perante os teus ouvidos. Meu corpo é invisível perante os teus olhos. Meus escritos são breves notas que não passam pelas tuas mãos.
Eu vago no tempo ao redor de ti, em espiral.
Te encontrei num nada azul. Giramos, giramos, gritamos. Para onde vamos?
Você foi.
Cartas e devaneios, quase memórias. O que aconteceu naquele tarde? Ou era noite? Talvez fosse julho. Você partiu e as memórias se despedaçaram.
Não sou quem fui, não sei quem sou.
Preciso juntar os pedaços para preencher os espaços, lacunas de vidas.
Um punhado de incertezas toma conta e talvez eu esteja misturando a realidade com a fantasia. Nós enlouquecemos?