Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.

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Somente lembranças

Eu quero cortar a minha pele, fazer retalhos de mim mesma e deixar o sangue escorrer por 100 anos, até a última gota.
O suor frio molha minha camiseta enquanto eu tremo com a lâmina nas mãos. É preciso mais força para não usa-la do que seria necessário para cortar os meus pulsos e acabar com esse sentimento que me invade e me descontrola.

Tateio as cicatrizes dos meus braços e os ossos saltados do meu quadril tentando buscar algum conforto, porém minha respiração ofegante é alta o suficiente para acabar com qualquer tentativa de me acalmar. Eu mal consigo contar até 10.

Só um corte seria o suficiente. Apenas 5 centímetros.

A lembrança do som baixo da navalha rasgando a minha pele e do sangue quente escorrendo pelos meus braços e pingando no chão, misturando-se com a água do chuveiro e indo embora em um redemoinho pelo ralo, levando minhas energias tal como se um eu houvesse sido devastada por um tornado é o mais perto que consigo chegar da antiga paz que os cortes me proporcionavam.

Era paz e prazer.
Era melhor que cocaína.
Sua capa vermelho vida, seu interior metálico e frio: minha heroína.