Morte em vida

Assim de longe percebo que tudo estava bem quando eu ainda levantava da cama, mesmo que com o objetivo de perder todo o peso do meu corpo até morrer, gastando uma energia que não era minha ao fingir que a razão não era essa, mesmo que fosse. Mesmo que eu tentasse me convencer de outras -possíveis- verdades.

Hoje sequer me movo. Nada está bem.

Minha vida tem se tornado escura dentro do meu quarto sem luz, tem sido silêncio e lágrimas compondo um choro tão vazio quanto triste.

Desconheço os dias da semana, do mês. Nunca sei se são 2h da manhã ou da tarde, não há importância em saber. 

A descrição que se parece com um dia de domingo azul escuro, daqueles em que a solidão se mistura à um tédio de tamanho monumental, nada mais é do que a realidade em que me encontro.

Além  da dor que assola meu peito e do sufoco do montante de cobertas que escondem meu corpo calejado pelo antigo excesso de sentimentos, um resquício de mim, intensa e alegre ainda permanece a sentir. É pouco, mas está aqui.

Entretanto, estou cansada de sentir. De me doer atrás de esconderijos de ossos, de projetar estranhos sorrisos em meu rosto a disfarçar a apatia, de tentar viver uma vida já morta. 

Perdida em algum lugar dentro dessa escuridão, abro e fecho meus olhos só para perceber se há movimento, é assim que sei que meu corpo ainda está aqui e que, de certa forma, eu permaneço nele. No mais, aguardo. 

Aguardo, aguardo e aguardo. Todos sabem disso. Todos veem isso.  Ninguém acredita que é realmente isso.  Contudo, afirmo: é! Sempre foi. 

Aliás, eu já fui, apenas -estranhamente- ainda estou aqui.

Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.