Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

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Quando alguém chega ao fim

[resumo dos últimos meses]

Eu parei de escrever porque meus braços estavam cansados e tremiam, minhas pernas deixaram de ser o suficiente para me manter em pé durante vários dias e a minha vida se tornou escuridão. Foram muitos os monólogos mentais que eu gostaria de ter passado para o papel, muitos os pensamentos que mereciam anotações antes que eu dormisse e os esquecesse para sempre ou que as alucinações do tempo em que meus olhos sequer conseguiam se fechar se confundissem com o mundo real. Foram tempos difíceis para o corpo e para a alma. A assombração de estar preso em si mesmo.
Por momentos, achei que jamais me recuperaria, que a minha vida se dividiria entre a cama e a banheira morna e meus olhos continuariam pedindo por socorro sem que alguém pudesse realmente entender que por trás daquele corpo que tremia incessantemente com qualquer som, eu estava sumindo.
Não sei qual período dessa história foi o pior: Quando eu não conseguia acordar ou quando eu não conseguia dormir. Ambas as situações duravam por dias e não havia escapatória, eu estava enlouquecendo com o mundo tentando me convencer de que eu ficaria bem, de que tudo era normal.
Contudo, eu ouvia sons que ninguém mais conseguia ouvir, vozes me chamando por todos os lados, vultos passando por dentro do meu corpo, frio incessante em dias de sol e o medo constante transformando a existência em agonia. Ele (o medo) estava sempre ali me fazendo suar frio, me deixando mais fraca, me sugando. Dias sem comer, dias sem tomar banho, me tornei bagunça presa numa solidão inacabável. Solidão tal que tomou parte de mim e então eu me esqueci de todas as palavras que queria dizer. As lágrimas caiam, mas não falavam por mim.
Minhas mãos ainda tremem e em alguns dias eu me arrisco a comer, a sair da cama-prisão, a ver o mundo. Nesses dias eu preciso de muitos remédios para enfrentar a vida e aceitar tudo o que foi tomado de mim por uma escuridão que ainda assombra minha alma. Minhas pernas estão mais fortes e eu já consigo tomar banho em pé, mas saio ofegante do chuveiro. Porém as palavras e as memórias pela metade, confusas e desordenadas, ainda me torturam, noite após noite, pílula após pílula, até um fim precoce caso eu não descubra e concerte o começo.

 

Agradeço pelo apoio de todos e responderei aos comentários em breve.

Maio 2015 – Março 2016

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Visões equivocadas por trás dos meus olhos embaralhados.
Imagem quase turva.
Abandonada.

Sentimentos da Recuperação

11/12/2015  eu consegui comer 1700 calorias.
Me sinto horrível e tudo dói. A recuperação exige mais de mim do que continuar a emagrecer.

Voltei a tomar a medicação para depressão. Os ataques de pânico diminuíram, assim como eu me sinto sentimentalmente diminuída. É certo esse insignificância?
Ou isso é um tipo de alegria que já não sei identificar?

Tenho medo desse mundo que se expande dentro de mim. Medo de quem eu sou. De quem eu posso ser.

(OBS: Durante a semana respondo aos comentários, obrigada a todos, li comentários tão carinhosos e bonitos que mesmo durante toda essa turbulência, o meu coração sorriu)

Ano Novo, Dietas Velhas

O final de ano foi devastador e quilos que haviam partido, voltaram.
Os ciclos de NF de 24, 36,48 e 60 horas foram desperdiçados com excessos que eu não sabia que o meu corpo poderia aguentar. A mia foi companheira automática: sem esforços! Porém não foi o suficiente.

46kg novamente. Outra vez desperdicei esforços e vida. Joguei fora as pequenas conquistas, enchi pratos de desilusões e meu corpo voltou ao caos.

As lâminas chamam-me incansavelmente, mas ainda resisto. Contudo, sinto falta da paz:
Ossos saltados, corpo vazio, sangue nas palavras e nas mãos.

Dietas e metas antigas transformam meu “ano novo” em nostalgia e dor. Feliz 2015.

 

(OBS: Eu prometo que essa semana eu respondo todos os comentários)

Será medo?

Você vê se os seus ossos, mas isso não é o suficiente. Suas calças estão largas e suas blusas não servem mais, mas isso não é o suficiente. Nada do que você faz é o suficiente pois você ainda não atingiu o seu peso ideal.

No fundo você sabe: nunca nada será o suficiente, são tudo desculpas para esconder o seu verdadeiro eu.
Você nunca esta completo, você nunca é o melhor.
Você não é o mais bonito, o mais interessante, o mais inteligente, o mais magro.

Sempre tem alguém melhor, é só olhar ao redor.

As pessoas estão se superando e você continua na mesma, dizendo que não aguenta mais sem ao menos chegar ao limite, sem ao menos ultrapassar o size0.
Seu medo de atingir suas metas é tão grande quanto o medo de que nada mude. Você sabe: vai sofrer.
Assim que o peso diminuir, as forças irão embora. Será difícil levantar da cama -mais do que já é. Você tem medo de perder quem diz que te ama, você tem medo de perder o que lhe resta de saúde, mas principalmente, você tem medo de se encontrar.

Tem medo de –finalmente- ser bom o suficiente. E morrer por isso.

Foto criada em 13-11-14 às 18.28 #2

 

A respeito de  quaisquer erros: estou bêbada.