Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.

O limite

Unir-se aos inimigos é algo inteligente, logo, faço da fome a minha melhor aliada.

O novo psiquiatra foi melhor que o esperado e deu-me a resposta mais preciosa: o peso mínimo que posso ter sem que hajam complicações sérias ou alterações neurológicas que podem render-me algum tipo de intervenção desagradável.

São os sonhados 40kg o limite do meu corpo. No entanto, eu não os quero. 40kg ainda é demais. 40kg ainda é desespero. 40kg ainda é tristeza. 40kg ainda doem. Meu corpo suporta 40kg, minha mente, não. Pelo menos, não mais. Ela não os suporta quando eu me aproximo deles, quando eu estou quase lá, quando faltam apenas algumas gramas ou alguns dias sem comer.

O limite da minha mente é um número menor do que o limite do meu corpo. O limite da minha mente sempre diminui. O limite da minha mente são ossos saltados, dedos arranhados e olhos famintos. O limite da minha mente não existe.