Tenho dito: estou cansada.

Eu sou o oposto de mim mesma.
Quero limpar o meu corpo, deixa-lo leve e livre, quero o que estive prestes a ter –e desisti. Tiro e coloco a roupa, passo de balança em balança procurando diferentes números. Nada muda, eu respiro fundo e seguro o ar até sentir meu corpo fraco. Volto da minha fuga ofegante, limpo as lágrimas dos olhos antes que elas caiam pelo meu rosto e manchem a minha maquiagem feita nos mínimos detalhes: maquiagem de rosto saudável. Falsas bochechas rosadas, batom em tons avermelhados ou rosados e duas camadas de máscaras para cílios. Perfeita para um dia comum, um dia de ser a pessoa que tenta fazer tudo da melhor forma, que oferece o braço para o cego atravessar a rua e espera pelos pais voltarem para casa com o café da tarde preparado em uma mesa redonda e bolos preparados em casa. Devido a tarde livre tudo está em perfeita ordem e todos estão felizes, exceto pelo fato de que tudo é uma bonita farsa para ignorar o fato de que todos estão entediados e cansados a espera de ficarem sozinhos para viverem suas verdadeiras emoções, seus verdadeiros desejos. Eu poderia me masturbar na hora sombria que se segue após eu tirar a louça da mesa enquanto cada um se esconde em algum lugar da casa para aproveitar o tempo a sós, o tempo livre. Para aproveitar as peculiaridades que suas mentes conseguem lhe prover.

Ligo alto o chuveiro e vomito o lanche com facilidade, mais chá do que qualquer coisa sólida facilita e machuca menos a minha garganta, porém o ácido ainda incomoda, queima. Tiro a roupa e não vejo os números diminuírem, parecem sempre iguais, poucas gramas diferenciam-se umas das outras, isso me destrói. Quero deixar essa parte para lá, e meu vício em remédios é a única outra coisa que me dará prazer instantâneo e um pouco mais de calma. Dobro as dosagens mesmo sabendo das consequências do dia seguinte. Queria que fossem medicamentos simples, mas xanax, oxycodona e carisoprodol formam um mix perfeito. Junto de mais um pouco analgésicos e outros antidepressivos que os médicos disseram não ser necessário sequer a metade daquilo que insisto em tomar, tenho a mistura perfeita na minha mão. Deito-me com um baseado aceso, essa é a única “coisa boa”. A maconha ao menos é medicinal. “Medicinal”-eu rio. Tudo o que eu tomo é medicinal, desde os meus melhores drinks (que graça haveria álcool sem opioides?)aos meus melhores aos cocktais pra enfrentar ou esquecer qualquer coisa que o mundo queira me oferecer e eu não esteja afim de ver.

É madrugada quando me peso de novo, mas não entendo os números. Encho a banheira pela metade com água fervente e espero o meu corpo queimar. É um exercício de resistência e de prazer: o prazer da dor me faz esquecer da vida, de tudo. É apenas dor: um sentimento puro. Não levanto até a água esfriar e meu corpo tremer de frio, até meus lábios ficarem roxos.

Saio da água e paro ainda nua frente a janela aberta. Eu quero sentir o vento bater nas gotas geladas que se prendem em mim. Respiro, respiro, respiro. A balança está no chão, apenas guardo-a como quem não se importa.

Eu tenho um dia inteiro pela frente para fingir a alegria que poucas vezes tive acesso. Preferia deitar na minha cama com um abraço apertado, um abraço daqueles que te faz perder o medo de continuar na vida, mesmo que esses abraços me tirem o foco do objetivo da minha existência.
Por favor, tripliquem as dosagens dos meus ajudantes diários. São eles que me mantém aqui, da mesma forma que serão eles a me tirar daqui. A me salvar. O peso de ser quem sou não é medido apenas por números. Não canso de dizer: estou cansada.

Taças de vinho e solidão

Minha mãe me pediu para parar de beber e então eu enchi uma taça de vinho –no café da manhã. Não foi provocação, ah essa altura ela já estava em um dos seus eventos sociais, assim como meu irmão, desde cedo, resolveu curtir a adolescência com seus amigos e viajar. Casa só para mim. Casa vazia.

Eu confesso: não houve um único dia em que eu não bebi até ficar totalmente tonta e então tomar doses exageradas de remédios para dormir. Minha caixa de madeira branca com ursinhos fofos desenhados é repleta de remédios tarja preta. Alguns conseguidos depois de implorar ao médico por horas, jurando não exagerar, outros conseguidos por vias não tão seguras em farmácias ilegais, mas o importante é que eu os tenho para as madrugadas que acordo em pânico sentindo a solidão me prender forte de um jeito que me impossibilita respirar. Então eu acordo, tomo algumas mg, deito, e fico olhando o relógio enquanto o meu corpo sua parar. 3h, 4h, 7h. Cansei, doses dobradas. Acordo no meio da meio da tarde: o que eu perdi?
Meus monstros já foram embora? Posso chorar sem que ninguém me escute? A solidão que chegou a noite ainda não foi embora. Talvez ela seja parte de mim, talvez ela continue a me sufocar, ou talvez eu me sufoque porque não quero mais aguentar.

Outra taça de vinho. Até onde vamos hoje? Exercícios escondidos no banheiro, mentiras clássicas (eu já comi), e dedos arranhados pelos dentes. Não, nenhuma caloria me pertence. Mas e eu? Eu me pertenço?

Quem sabe, até logo

No horário de tomar os meus remédios, mais uma vez me peguei encarando os vidros alaranjados cheios daquilo que pode me tirar toda a dor da vida. Sei que em um minuto de coragem insana tudo o que me faz mal pode desaparecer, assim como eu também.
Mentalizar a minha imagem em um caixão já não me assusta, apenas me traz paz. Em alguns dias de tédio e tristeza, passeio por lojas de roupas tentando escolher o que seria ideal para o momento final, assim ninguém precisaria pensar a respeito.
Eu já tenho os sapatos.
Não há como negar: estou me preparando para morrer, mas aos poucos. Tenho feito o meu melhor dizendo adeus em forma de olá. Deveria ser direito universal decidir quando partir sem que a culpa ou o medo inundassem os pensamentos fazendo-nos acreditar que é possível permanecer na vida apenas por mais um dia, uma semana, um mês, principalmente quando o cansaço contínuo já chegou ao seu limite e a própria solidão escurece até os dias mais ensolarados.
Assim a despedida seria com abraços apertados, promessas de saudades, e um adeus em forma de sorriso e boa sorte -ou talvez – até logo.

Medos

Eu queria ser magra porque tinha medo que não houvesse mais nada para ser.  /Setembro/2016

 

 

Talvez realmente não haja. Preciso de meu antigo foco para seguir em frente com a vida mesmo que a direção dessa ação seja a morte.

Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.