Morte em vida

Assim de longe percebo que tudo estava bem quando eu ainda levantava da cama, mesmo que com o objetivo de perder todo o peso do meu corpo até morrer, gastando uma energia que não era minha ao fingir que a razão não era essa, mesmo que fosse. Mesmo que eu tentasse me convencer de outras -possíveis- verdades.

Hoje sequer me movo. Nada está bem.

Minha vida tem se tornado escura dentro do meu quarto sem luz, tem sido silêncio e lágrimas compondo um choro tão vazio quanto triste.

Desconheço os dias da semana, do mês. Nunca sei se são 2h da manhã ou da tarde, não há importância em saber. 

A descrição que se parece com um dia de domingo azul escuro, daqueles em que a solidão se mistura à um tédio de tamanho monumental, nada mais é do que a realidade em que me encontro.

Além  da dor que assola meu peito e do sufoco do montante de cobertas que escondem meu corpo calejado pelo antigo excesso de sentimentos, um resquício de mim, intensa e alegre ainda permanece a sentir. É pouco, mas está aqui.

Entretanto, estou cansada de sentir. De me doer atrás de esconderijos de ossos, de projetar estranhos sorrisos em meu rosto a disfarçar a apatia, de tentar viver uma vida já morta. 

Perdida em algum lugar dentro dessa escuridão, abro e fecho meus olhos só para perceber se há movimento, é assim que sei que meu corpo ainda está aqui e que, de certa forma, eu permaneço nele. No mais, aguardo. 

Aguardo, aguardo e aguardo. Todos sabem disso. Todos veem isso.  Ninguém acredita que é realmente isso.  Contudo, afirmo: é! Sempre foi. 

Aliás, eu já fui, apenas -estranhamente- ainda estou aqui.

Tenho dito: estou cansada.

Eu sou o oposto de mim mesma.
Quero limpar o meu corpo, deixa-lo leve e livre, quero o que estive prestes a ter –e desisti. Tiro e coloco a roupa, passo de balança em balança procurando diferentes números. Nada muda, eu respiro fundo e seguro o ar até sentir meu corpo fraco. Volto da minha fuga ofegante, limpo as lágrimas dos olhos antes que elas caiam pelo meu rosto e manchem a minha maquiagem feita nos mínimos detalhes: maquiagem de rosto saudável. Falsas bochechas rosadas, batom em tons avermelhados ou rosados e duas camadas de máscaras para cílios. Perfeita para um dia comum, um dia de ser a pessoa que tenta fazer tudo da melhor forma, que oferece o braço para o cego atravessar a rua e espera pelos pais voltarem para casa com o café da tarde preparado em uma mesa redonda e bolos preparados em casa. Devido a tarde livre tudo está em perfeita ordem e todos estão felizes, exceto pelo fato de que tudo é uma bonita farsa para ignorar o fato de que todos estão entediados e cansados a espera de ficarem sozinhos para viverem suas verdadeiras emoções, seus verdadeiros desejos. Eu poderia me masturbar na hora sombria que se segue após eu tirar a louça da mesa enquanto cada um se esconde em algum lugar da casa para aproveitar o tempo a sós, o tempo livre. Para aproveitar as peculiaridades que suas mentes conseguem lhe prover.

Ligo alto o chuveiro e vomito o lanche com facilidade, mais chá do que qualquer coisa sólida facilita e machuca menos a minha garganta, porém o ácido ainda incomoda, queima. Tiro a roupa e não vejo os números diminuírem, parecem sempre iguais, poucas gramas diferenciam-se umas das outras, isso me destrói. Quero deixar essa parte para lá, e meu vício em remédios é a única outra coisa que me dará prazer instantâneo e um pouco mais de calma. Dobro as dosagens mesmo sabendo das consequências do dia seguinte. Queria que fossem medicamentos simples, mas xanax, oxycodona e carisoprodol formam um mix perfeito. Junto de mais um pouco analgésicos e outros antidepressivos que os médicos disseram não ser necessário sequer a metade daquilo que insisto em tomar, tenho a mistura perfeita na minha mão. Deito-me com um baseado aceso, essa é a única “coisa boa”. A maconha ao menos é medicinal. “Medicinal”-eu rio. Tudo o que eu tomo é medicinal, desde os meus melhores drinks (que graça haveria álcool sem opioides?)aos meus melhores aos cocktais pra enfrentar ou esquecer qualquer coisa que o mundo queira me oferecer e eu não esteja afim de ver.

É madrugada quando me peso de novo, mas não entendo os números. Encho a banheira pela metade com água fervente e espero o meu corpo queimar. É um exercício de resistência e de prazer: o prazer da dor me faz esquecer da vida, de tudo. É apenas dor: um sentimento puro. Não levanto até a água esfriar e meu corpo tremer de frio, até meus lábios ficarem roxos.

Saio da água e paro ainda nua frente a janela aberta. Eu quero sentir o vento bater nas gotas geladas que se prendem em mim. Respiro, respiro, respiro. A balança está no chão, apenas guardo-a como quem não se importa.

Eu tenho um dia inteiro pela frente para fingir a alegria que poucas vezes tive acesso. Preferia deitar na minha cama com um abraço apertado, um abraço daqueles que te faz perder o medo de continuar na vida, mesmo que esses abraços me tirem o foco do objetivo da minha existência.
Por favor, tripliquem as dosagens dos meus ajudantes diários. São eles que me mantém aqui, da mesma forma que serão eles a me tirar daqui. A me salvar. O peso de ser quem sou não é medido apenas por números. Não canso de dizer: estou cansada.

Taças de vinho e solidão

Minha mãe me pediu para parar de beber e então eu enchi uma taça de vinho –no café da manhã. Não foi provocação, a essa altura ela já estava em um dos seus eventos sociais, assim como meu irmão, desde cedo, resolveu curtir a adolescência com seus amigos e viajar. Casa só para mim. Casa vazia.

Eu confesso: não houve um único dia em que eu não bebi até ficar totalmente tonta e então tomar doses exageradas de remédios para dormir. Minha caixa de madeira branca com ursinhos fofos desenhados é repleta de remédios tarja preta. Alguns conseguidos depois de implorar ao médico por horas, jurando não exagerar, outros conseguidos por vias não tão seguras em farmácias ilegais, mas o importante é que eu os tenho para as madrugadas que acordo em pânico sentindo a solidão me prender forte de um jeito que me impossibilita respirar. Então eu acordo, tomo algumas mg, deito, e fico olhando o relógio enquanto o meu corpo sua sem parar. 3, 4, 7horas.  Cansei, doses dobradas.

Acordo no meio da meio da tarde: O que eu perdi? Meus monstros já foram embora? Posso chorar sem que ninguém me escute? A solidão que chegou a noite ainda não foi embora. Talvez ela seja parte de mim, talvez ela continue a me sufocar, ou talvez eu me sufoque porque não quero mais aguentar.

Outra taça de vinho. Até onde vamos hoje? Exercícios escondidos no banheiro, mentiras clássicas e dedos arranhados pelos dentes. Não, nenhuma caloria me pertence. Mas e eu? Eu me pertenço?

Quem sabe, até logo

No horário de tomar os meus remédios, mais uma vez me peguei encarando os vidros alaranjados cheios daquilo que pode me tirar toda a dor da vida. Sei que em um minuto de coragem insana tudo o que me faz mal pode desaparecer, assim como eu também.
Mentalizar a minha imagem em um caixão já não me assusta, apenas me traz paz. Em alguns dias de tédio e tristeza, passeio por lojas de roupas tentando escolher o que seria ideal para o momento final, assim ninguém precisaria pensar a respeito.
Eu já tenho os sapatos.
Não há como negar: estou me preparando para morrer, mas aos poucos. Tenho feito o meu melhor dizendo adeus em forma de olá. Deveria ser direito universal decidir quando partir sem que a culpa ou o medo inundassem os pensamentos fazendo-nos acreditar que é possível permanecer na vida apenas por mais um dia, uma semana, um mês, principalmente quando o cansaço contínuo já chegou ao seu limite e a própria solidão escurece até os dias mais ensolarados.
Assim a despedida seria com abraços apertados, promessas de saudades, e um adeus em forma de sorriso e boa sorte -ou talvez – até logo.

Medos

Eu queria ser magra porque tinha medo que não houvesse mais nada para ser.  /Setembro/2016

 

 

Talvez realmente não haja. Preciso de meu antigo foco para seguir em frente com a vida mesmo que a direção dessa ação seja a morte.

Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

Descrição da ansiedade que me prende

A ansiedade me atormenta, me destrói de dentro para fora, me anula e me prende.

Eu tento beber água e respirar fundo, mas ela continua ali, junto a uma depressão que tenta se esconder atrás de sintomas errados.

Eu tranco as portas e corro para a cama protetora, meu costumeiro refúgio. Tento me esconder debaixo dos lençóis e cobertores, mas não me escondo delas, apenas do mundo a minha volta.

As vezes rezo por horas até tudo acabar, as vezes em durmo em meio a um choro abafado e ao medo de seguir em frente e continuar confinada ao meu casulo pseudo protetor pelo resto dos meus dias.

Porém, ao acordar, com o peito já mais leve e os pensamentos superficialmente ordenados, lembro-me que a vida é um ciclo e que os momentos ruins também chegam ao fim.

Levanto da minha cama com as pernas ainda trêmulas e o restante do medo que sobrou da noite anterior. Sento próximo a janela olho para o céu cinza e sei que por trás dele o sol continua ali, assim como eu também continuarei.

Os dias claros chegarão novamente e o medo dirá adeus.