Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

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Somente lembranças

Eu quero cortar a minha pele, fazer retalhos de mim mesma e deixar o sangue escorrer por 100 anos, até a última gota.
O suor frio molha minha camiseta enquanto eu tremo com a lâmina nas mãos. É preciso mais força para não usa-la do que seria necessário para cortar os meus pulsos e acabar com esse sentimento que me invade e me descontrola.

Tateio as cicatrizes dos meus braços e os ossos saltados do meu quadril tentando buscar algum conforto, porém minha respiração ofegante é alta o suficiente para acabar com qualquer tentativa de me acalmar. Eu mal consigo contar até 10.

Só um corte seria o suficiente. Apenas 5 centímetros.

A lembrança do som baixo da navalha rasgando a minha pele e do sangue quente escorrendo pelos meus braços e pingando no chão, misturando-se com a água do chuveiro e indo embora em um redemoinho pelo ralo, levando minhas energias tal como se um eu houvesse sido devastada por um tornado é o mais perto que consigo chegar da antiga paz que os cortes me proporcionavam.

Era paz e prazer.
Era melhor que cocaína.
Sua capa vermelho vida, seu interior metálico e frio: minha heroína.