Quem sabe, até logo

No horário de tomar os meus remédios, mais uma vez me peguei encarando os vidros alaranjados cheios daquilo que pode me tirar toda a dor da vida. Sei que em um minuto de coragem insana tudo o que me faz mal pode desaparecer, assim como eu também.
Mentalizar a minha imagem em um caixão já não me assusta, apenas me traz paz. Em alguns dias de tédio e tristeza, passeio por lojas de roupas tentando escolher o que seria ideal para o momento final, assim ninguém precisaria pensar a respeito.
Eu já tenho os sapatos.
Não há como negar: estou me preparando para morrer, mas aos poucos. Tenho feito o meu melhor dizendo adeus em forma de olá. Deveria ser direito universal decidir quando partir sem que a culpa ou o medo inundassem os pensamentos fazendo-nos acreditar que é possível permanecer na vida apenas por mais um dia, uma semana, um mês, principalmente quando o cansaço contínuo já chegou ao seu limite e a própria solidão escurece até os dias mais ensolarados.
Assim a despedida seria com abraços apertados, promessas de saudades, e um adeus em forma de sorriso e boa sorte -ou talvez – até logo.

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Medos

Eu queria ser magra porque tinha medo que não houvesse mais nada para ser.  /Setembro/2016

 

 

Talvez realmente não haja. Preciso de meu antigo foco para seguir em frente com a vida mesmo que a direção dessa ação seja a morte.

Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

Somente lembranças

Eu quero cortar a minha pele, fazer retalhos de mim mesma e deixar o sangue escorrer por 100 anos, até a última gota.
O suor frio molha minha camiseta enquanto eu tremo com a lâmina nas mãos. É preciso mais força para não usa-la do que seria necessário para cortar os meus pulsos e acabar com esse sentimento que me invade e me descontrola.

Tateio as cicatrizes dos meus braços e os ossos saltados do meu quadril tentando buscar algum conforto, porém minha respiração ofegante é alta o suficiente para acabar com qualquer tentativa de me acalmar. Eu mal consigo contar até 10.

Só um corte seria o suficiente. Apenas 5 centímetros.

A lembrança do som baixo da navalha rasgando a minha pele e do sangue quente escorrendo pelos meus braços e pingando no chão, misturando-se com a água do chuveiro e indo embora em um redemoinho pelo ralo, levando minhas energias tal como se um eu houvesse sido devastada por um tornado é o mais perto que consigo chegar da antiga paz que os cortes me proporcionavam.

Era paz e prazer.
Era melhor que cocaína.
Sua capa vermelho vida, seu interior metálico e frio: minha heroína.