Medos

Eu queria ser magra porque tinha medo que não houvesse mais nada para ser.  /Setembro/2016

 

 

Talvez realmente não haja. Preciso de meu antigo foco para seguir em frente com a vida mesmo que a direção dessa ação seja a morte.

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Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

Segredos de Agenda

Eu tomo três banhos por dia, caso contrário sinto que há algo tão errado que o meu mundo pode acabar e é difícil até mesmo de respirar. Porém dois banhos são aceitáveis, ainda é possível dormir. A culpa é menor do que se for um só.

Entretanto hoje eu preferi não sair da cama. Não trocar a roupa de ontem e deixar o chuveiro com seus poderes de limpeza física e espiritual desligado. Hoje eu preferi não viver, mas continuo aqui, talvez por um exagero nos remédios que me acalmam.
Deixar o meu corpo tão cansado quanto a minha mente é a melhor forma de prevenir certos impulsos autodestrutivos, mas não é cura para a solidão que me destrói. Não resolve os problemas que me colocaram nessa situação, e então eu como, e como muito.

Doces, salgados, misturas incomuns. Eu como na esperança de preencher o vazio, de desviar o foco e permitir que uma dor física me faça deixar de pensar a respeito daquilo que gira dentro da minha cabeça e me estraga por inteiro.

Eu como até sentir que vou explodir. Ai me escondo no banheiro com música alta e coloco tudo para fora até a minha cabeça doer, até a garganta arder e eu sentir que não há mais forças para continuar. Só que eu continuo. Do banheiro a geladeira, ao quarto e ao banheiro novamente, continuo até o esgotamento não me permitir mais nenhum passo e eu finalmente me sentir a vontade por ter feito o que sei fazer. Por ter acertado na minha falha. Uma falha que dói, mas não sangra. Uma falha que ninguém vê e que me faz pensar que talvez não seja tarde demais para voltar atrás. Livrar o meu corpo de todos os erros que o submeti por acreditar que comer seria seguro, que poderia ser uma solução. Porém 36kg é uma tristeza mais feliz.

Certos tipos de dor são o que eu chamo de lar. Meu porto seguro me machuca, mas é o único lugar para o qual posso ir enquanto espero que a força volte e por mais um dia, atrás de cicatrizes, visíveis ou não, eu encontre forças para continuar.

Porém, quando a escuridão da madrugada chega , depois de um dia vazio, eu ainda me pergunto: Vale apena continuar só para saber o que vem depois?

meu alface favorito

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