Quando alguém chega ao fim

[resumo dos últimos meses]

Eu parei de escrever porque meus braços estavam cansados e tremiam, minhas pernas deixaram de ser o suficiente para me manter em pé durante vários dias e a minha vida se tornou escuridão. Foram muitos os monólogos mentais que eu gostaria de ter passado para o papel, muitos os pensamentos que mereciam anotações antes que eu dormisse e os esquecesse para sempre ou que as alucinações do tempo em que meus olhos sequer conseguiam se fechar se confundissem com o mundo real. Foram tempos difíceis para o corpo e para a alma. A assombração de estar preso em si mesmo.
Por momentos, achei que jamais me recuperaria, que a minha vida se dividiria entre a cama e a banheira morna e meus olhos continuariam pedindo por socorro sem que alguém pudesse realmente entender que por trás daquele corpo que tremia incessantemente com qualquer som, eu estava sumindo.
Não sei qual período dessa história foi o pior: Quando eu não conseguia acordar ou quando eu não conseguia dormir. Ambas as situações duravam por dias e não havia escapatória, eu estava enlouquecendo com o mundo tentando me convencer de que eu ficaria bem, de que tudo era normal.
Contudo, eu ouvia sons que ninguém mais conseguia ouvir, vozes me chamando por todos os lados, vultos passando por dentro do meu corpo, frio incessante em dias de sol e o medo constante transformando a existência em agonia. Ele (o medo) estava sempre ali me fazendo suar frio, me deixando mais fraca, me sugando. Dias sem comer, dias sem tomar banho, me tornei bagunça presa numa solidão inacabável. Solidão tal que tomou parte de mim e então eu me esqueci de todas as palavras que queria dizer. As lágrimas caiam, mas não falavam por mim.
Minhas mãos ainda tremem e em alguns dias eu me arrisco a comer, a sair da cama-prisão, a ver o mundo. Nesses dias eu preciso de muitos remédios para enfrentar a vida e aceitar tudo o que foi tomado de mim por uma escuridão que ainda assombra minha alma. Minhas pernas estão mais fortes e eu já consigo tomar banho em pé, mas saio ofegante do chuveiro. Porém as palavras e as memórias pela metade, confusas e desordenadas, ainda me torturam, noite após noite, pílula após pílula, até um fim precoce caso eu não descubra e concerte o começo.

 

Agradeço pelo apoio de todos e responderei aos comentários em breve.

Maio 2015 – Março 2016

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Visões equivocadas por trás dos meus olhos embaralhados.
Imagem quase turva.
Abandonada.

Há um ano atrás

Álcool e calmantes fazem com que o meu cérebro funcione em uma frequência diferente e assim eu consigo abrir a minha mente e falar de um tempo que machuca o meu coração.

Há um ano atrás eu não desejava que o dia terminasse sem que eu me terminasse também. Há um ano atrás lençóis brancos me acolhiam e enfermeiras batiam na minha porta de 3h em 3h. Comprimidos esmagados dentro de seringas. Batimentos marcados no papel. Diuréticos e laxantes em caixas de lápis de cor. Segredos guardados por paredes cor de gelo.

Não foi o fim quando eu desejava que tivesse sido.
Eu não fui longe o suficiente.
Eu não matei o meu corpo.
Eu não morri de fome.
Eu não me matei.

Fantasmas sentavam a beira da minha cama de hospital e acariciavam os meus cabelos bagunçados, mas não diziam que tudo ficaria bem. Eles culpavam-me por não ter ido até o fim, por não ser o que eles eram.
Fantasmas me esperavam do outro lado.
Porém eu não segui a luz.
Desviei-me do caminho, dei meia volta no túnel da escuridão.
Eu abri olhos sem poder enxergar e acreditei em palavras que não eram minhas, em guias que desconheciam minhas angustias e não sabiam se eu realmente poderia sorrir.

Há um ano atrás eu fiz uma escolha quando e eu não soube o que escolher.
Eu não sabia quem era ou quem poderia ser. Eu ainda não sei quem sou, mas….
Há um ano atrás eu escolhi estar aqui.

CAMA DA HOSPITAL

Foto do hospital há um ano atrás

Sentimentos da Recuperação

11/12/2015  eu consegui comer 1700 calorias.
Me sinto horrível e tudo dói. A recuperação exige mais de mim do que continuar a emagrecer.

Voltei a tomar a medicação para depressão. Os ataques de pânico diminuíram, assim como eu me sinto sentimentalmente diminuída. É certo esse insignificância?
Ou isso é um tipo de alegria que já não sei identificar?

Tenho medo desse mundo que se expande dentro de mim. Medo de quem eu sou. De quem eu posso ser.

(OBS: Durante a semana respondo aos comentários, obrigada a todos, li comentários tão carinhosos e bonitos que mesmo durante toda essa turbulência, o meu coração sorriu)

Passam os anos, permanecem os hábitos

Há um ano atrás eu entrei pela mesma porta, para o mesmo restaurante. Há um ano atrás eu pedi o mesmo hambúrguer e uma cerveja. Há um ano atrás eu fui até o banheiro logo após comer. Há um ano atrás eu fiquei feliz pelo flúor disponível ao lado da pia. Há um ano atrás eu fiz tudo o que fiz hoje, exceto pela cerveja.

Há um ano atrás não havia esperança.

Hoje, talvez.

Recomeço

Porta trancada, chuveiro ligado, música alta e sangue sob meus dedos: sensação de dever cumprido.
Estou limpa dos meus erros, das minhas falhas. Estou limpa -por enquanto.

Novamente o ciclo de inicia, novamente é mais fácil do que na tentativa anterior.

Já não existe mais medo, porém está ficando tarde. O tempo não é eterno e eu preciso corrigir os meus erros. A fraqueza do meu corpo será a força da minha mente.

Santa mia.

Será medo?

Você vê se os seus ossos, mas isso não é o suficiente. Suas calças estão largas e suas blusas não servem mais, mas isso não é o suficiente. Nada do que você faz é o suficiente pois você ainda não atingiu o seu peso ideal.

No fundo você sabe: nunca nada será o suficiente, são tudo desculpas para esconder o seu verdadeiro eu.
Você nunca esta completo, você nunca é o melhor.
Você não é o mais bonito, o mais interessante, o mais inteligente, o mais magro.

Sempre tem alguém melhor, é só olhar ao redor.

As pessoas estão se superando e você continua na mesma, dizendo que não aguenta mais sem ao menos chegar ao limite, sem ao menos ultrapassar o size0.
Seu medo de atingir suas metas é tão grande quanto o medo de que nada mude. Você sabe: vai sofrer.
Assim que o peso diminuir, as forças irão embora. Será difícil levantar da cama -mais do que já é. Você tem medo de perder quem diz que te ama, você tem medo de perder o que lhe resta de saúde, mas principalmente, você tem medo de se encontrar.

Tem medo de –finalmente- ser bom o suficiente. E morrer por isso.

Foto criada em 13-11-14 às 18.28 #2

 

A respeito de  quaisquer erros: estou bêbada.