Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

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Ser Livre

Eu não choro mais, apenas guardo a tristeza dentro de mim. 
Comprimidos para escapar da realidade são o meuvício e eu gosto dele: brinco com as combinações, brinco com a vida. Se não posso contar as calorias, conto então as mg e a cada dia que se passa elas aumentam. Essa troca é a cortesia autodestrutiva que me permiti desfrutar para suportar estar presente na vida, no hoje.  
Contudo, ela (a vida) me machuca e me tortura, insiste para que eu diga adeus. Ela não me quer aqui. Não fomos preparadas para compartilhar o mesmo mundo, o mesmo corpo. 
No auge do nosso próprio desespero, ela finge-se de amiga e oferece-me uma nova dieta quando olho-me no espelho com relutância, um comprimido a mais quando é madrugada e peso da solidão não me deixa dormir e lâminas afiadas quando preciso me livrar do remorso de ser quem sou. Ela conhece os segredos mais profundos e então me permito ser manipulada pelas suas doces e falsas palavras porque não quero mais lutar, porque tenho medo que ela me conte com um toque de maldade tudo aquilo que quero esquecer.   
Com os maxilares doendo respirando fundo, de cabeça em pé, estou perdendo essa disputa. Eu escolho perder porquê dessa vez, talvez perder signifique liberdade e eu preciso ser livre.  
Livre para ser o que sou, como sou, sem portas trancadas e sem mentiras clichês.  
Livre para chorar mais uma vez. 
 
 

Angústia

É verão e o sol que clareia o meu quarto não clareia a mim também. Pingos de suor escorrem pelos meus braços e fazem com que eu me sinta suja. Tomo banho uma, duas, cinco vezes. Não adianta. Olho para o relógio e as horas correm. Não consigo acompanhá-las, elas não me esperam.
Num piscar de olhos o dia chega ao fim e eu ainda estou na minha cama. Não há mais nada que eu possa fazer, o tempo se foi. Meus pensamentos oscilam e se perdem entre decisões que não consigo tomar: remédios para dormir ou para acordar? Eu quero que o hoje acabe ou ainda há esperança?
Tenho medo de decidir. Mais uma hora se passou.
Conforme o relógio acelera, minha agitação aumenta. Prometo que vou me decidir nos próximos 5 minutos, e então nos próximos 5, e então depois de 15 minutos, 30 minutos. Mais uma hora se passa e continuo no mesmo lugar. Agora é a lua que ilumina lá fora.
Esqueço das responsabilidades e do medo do amanhã e tomo meus remédios sem pensar duas vezes. Ficarei acordada. Suo frio. Passarei a noite junto dos pensamentos que assustam e torturam, dos pesadelos que surgem antes mesmo de eu dormir.
Reconheço: eu sou o meu maior inimigo.

 

Egoísmo meu?

Por quanto tempo eu ainda vou viver? Por quanto tempo eu ainda vou aguentar esse cansaço, essa dor? Eu sou obrigada a continuar?

Estou cansada de continuar, preciso de um pouco de paz. Se meu corpo não tiver paz, minha alma não terá. Tudo doera em conjunto, dia após dia. Esses machucados invisíveis me destroem.


Mesmo nas manhãs calmas, a fresta de sol quente e acolhedor que vem da minha janela e toca suave os meus pés não é o suficiente para que eu sorria ao acordar. Cansei também de acordar.


Será egoísmo meu querer partir mais cedo ou egoísmo alheio insistir que eu permaneça nesse corpo? Corpo que, aliás, não foi feito para mim. Tento mudá-lo, moldá-lo, torná-lo compatível com aquilo que sou, mas ele apenas se desgasta revidando minhas atitudes desesperadas, tentando manter-se corpo vivo, biologicamente ativo.

Impulsivo, este corpo é também paradoxal:

Num dia recusa alimento, no outro tudo deseja.
Num dia recusa a mover-se, no outro não para.
Num dia dói, no outro também.

Não, esse corpo não é meu, eu não o quero. Posso trocá-lo? Modificá-lo não é o suficiente, ele não aguentará os mesmos que limites que tem a minha vaidade, a minha dedicação. Minha alma não cabe nele. Eu não caibo.

Este corpo não é o meu lugar. Esse corpo é prisão. Estou sufocando.

O Limbo Silencioso

Hoje eu me permiti a música que tocou no hospital no dia em que você morreu. Ela fez tanto sentido que seu tom marcou-se em minha alma.
Foi o som perfeito no momento mais triste, revelava o que viria a seguir. Era música de dizer adeus. Todos os nossos olhos ficaram tristes e
até o sol mudou de nome e de cor quando você se foi. Sequer deixei que a linda poesia que ali fora cantada perpetuasse em minha mente, não
até o momento eu que também me permiti ir.
Como dói dizer adeus quando as palavras não tem som fora de nossos lábios, quando são apenas os
nossos olhos a guardar segredos, escurecendo atrás de cada passo que damos em rumo ao fim de nossas vidas.
Naquele momento sua respiração disse adeus.
Eu disse até logo.
A estrada que você passava a conhecer enquanto o calor se afastava do seu corpo fora há muitos anos a minha morada. Eu já havia atravessado o portal que você
finalmente estava a conhecer.
Hoje me permiti ir ao teu encontro. Você passou reto, não me olhou. Que inveja senti: você partiu com música bonita, com poesia proclamada e ainda me ignora com seu jeito firme.
Não me nota, eu não sou nada. Suo, grito, mas estou sozinha, abandonada.
Procurei ouvir sua voz, ter uma melodia para morrer. Te olho, te chamo, você não me vê.
O silencio é frio no limbo em que me perdi.

A música não toca mais.

Noites de Insônia

4h de sono não são o suficiente, eu me sinto cansada. Cansada da dor do mundo, dos dias tristes, da minha própria dor.

Os pensamentos são loops que misturam passado, presente e futuro. Estou perdida.

Meus olhos querem se fechar, meu corpo precisa de repouso, minha mente procura racionalmente a resolução de problemas que ainda não descobri quais são. A resposta para as perguntas essenciais sobre a vida.

Quem sou eu? No fundo do meu eu?

Nesses dias escuros, desejo apenas aquietar os pensamentos num sono longo, renovador.

Sem sonhos, por favor.

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