Taças de vinho e solidão

Minha mãe me pediu para parar de beber e então eu enchi uma taça de vinho –no café da manhã. Não foi provocação, ah essa altura ela já estava em um dos seus eventos sociais, assim como meu irmão, desde cedo, resolveu curtir a adolescência com seus amigos e viajar. Casa só para mim. Casa vazia.

Eu confesso: não houve um único dia em que eu não bebi até ficar totalmente tonta e então tomar doses exageradas de remédios para dormir. Minha caixa de madeira branca com ursinhos fofos desenhados é repleta de remédios tarja preta. Alguns conseguidos depois de implorar ao médico por horas, jurando não exagerar, outros conseguidos por vias não tão seguras em farmácias ilegais, mas o importante é que eu os tenho para as madrugadas que acordo em pânico sentindo a solidão me prender forte de um jeito que me impossibilita respirar. Então eu acordo, tomo algumas mg, deito, e fico olhando o relógio enquanto o meu corpo sua parar. 3h, 4h, 7h. Cansei, doses dobradas. Acordo no meio da meio da tarde: o que eu perdi?
Meus monstros já foram embora? Posso chorar sem que ninguém me escute? A solidão que chegou a noite ainda não foi embora. Talvez ela seja parte de mim, talvez ela continue a me sufocar, ou talvez eu me sufoque porque não quero mais aguentar.

Outra taça de vinho. Até onde vamos hoje? Exercícios escondidos no banheiro, mentiras clássicas (eu já comi), e dedos arranhados pelos dentes. Não, nenhuma caloria me pertence. Mas e eu? Eu me pertenço?

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Quem sabe, até logo

No horário de tomar os meus remédios, mais uma vez me peguei encarando os vidros alaranjados cheios daquilo que pode me tirar toda a dor da vida. Sei que em um minuto de coragem insana tudo o que me faz mal pode desaparecer, assim como eu também.
Mentalizar a minha imagem em um caixão já não me assusta, apenas me traz paz. Em alguns dias de tédio e tristeza, passeio por lojas de roupas tentando escolher o que seria ideal para o momento final, assim ninguém precisaria pensar a respeito.
Eu já tenho os sapatos.
Não há como negar: estou me preparando para morrer, mas aos poucos. Tenho feito o meu melhor dizendo adeus em forma de olá. Deveria ser direito universal decidir quando partir sem que a culpa ou o medo inundassem os pensamentos fazendo-nos acreditar que é possível permanecer na vida apenas por mais um dia, uma semana, um mês, principalmente quando o cansaço contínuo já chegou ao seu limite e a própria solidão escurece até os dias mais ensolarados.
Assim a despedida seria com abraços apertados, promessas de saudades, e um adeus em forma de sorriso e boa sorte -ou talvez – até logo.

Respira, conta, solta

Meu braços e pernas ficam fracos e eu começo a tremer o queixo, mesmo sem sentir frio. Suor escorre pelo corpo todo. Eu vou desmoronar a qualquer segundo. Eu vou explodir. Quero chorar mas as lágrimas estão presas. Quero fugir mas não há como sair de dentro de mim. Eu estou com medo. O mundo está se fechando ao meu redor e eu não consigo respirar.

Esta tudo ficando escuro e eu não consigo me mexer.

Não quero fechar os olhos. Eu acho que vou morrer. Respira, conta, solta. O estômago vazio faz barulho. Ele reclama ou agradece?

Respira, conta, solta. Sem lâminas nas mãos.

O dobro de comprimidos.

Respira, conta, solta. Dói.

Eu acho que vou morrer.

Eu estou com medo.

Vida pelas sombras

A vergonha aperta o meu peito e me faz ter vontade de chorar, distribuindo o constrangimento por todo o meu corpo. Eu tento me esconder de espelhos, de fotos, de quaisquer roupas que possam chamar a atenção. Quero passar despercebida pela vida, cumprir o meu caminho nas sombras para que ninguém possa me enxergar porque os olhares machucam, gritam que eu falhei, fazem sentir-me sujeira que polui tudo o que toca.
Tranco-me no banheiro e me esfrego repetidamente até arder, até cansar. Contudo, continuo com nojo de me olhar, com medo de contaminar a tudo e a todos com a pessoa que sou.
Sendo assim, desejo fortemente não existir, mas não posso acabar com o corpo que me prende e prejudicar quem por ilusão da vida ainda não percebeu toda a toxidade que emano ao existir.
Cortes profundos deixando que a sujeira em forma de sangue vermelho caia pelo ralo soam como libertação. Talvez esvaziar minha cela de pele e ossos me leve a descobrir por alguns segundos o que é ser digno de existir.

Medos

Eu queria ser magra porque tinha medo que não houvesse mais nada para ser.  /Setembro/2016

 

 

Talvez realmente não haja. Preciso de meu antigo foco para seguir em frente com a vida mesmo que a direção dessa ação seja a morte.

Dia Vermelho

Eu quero me cortar muito, cortar fundo. Quero meu corpo coberto de vermelho quente, quero abrir grandes espaços nos meus braços e pernas para que eu possa respirar, aliviar toda essa tensão e angústia. Estou em prantos escondida no meu canto, portas trancadas e música alta para ninguém ouvir a minha dor.  
Minhas mãos tremem, meu peito aperta, suo frio: desespero.  
Corto mais fundo, mas não sinto nada. Então corto novamente, dessa vez em cima dos cortes do dia anterior que ao retirar os curativos voltam a sangrar. Ainda não sinto dor, não sinto alívio.  
Paro observo o sangue escorrer e se juntar a água, mudando tudo de cor.  Meu banheiro se parece com o cenário de algum filme B, talvez o velho “horror show” dos anos 90. Não sei dizer se isso me assusta ou me encanta, porém não importa, visto que a agonia continua a me torturar. Não parece haver escapatória.  
Quero gritar, mas o pânico que me perturba tira a minha voz, tira as minhas forças, não me deixa pedir ajuda.  
Tenho medo, tenho vergonha.  
Estou cansada. 
Quero acabar. 

Ser Livre

Eu não choro mais, apenas guardo a tristeza dentro de mim. 
Comprimidos para escapar da realidade são o meuvício e eu gosto dele: brinco com as combinações, brinco com a vida. Se não posso contar as calorias, conto então as mg e a cada dia que se passa elas aumentam. Essa troca é a cortesia autodestrutiva que me permiti desfrutar para suportar estar presente na vida, no hoje.  
Contudo, ela (a vida) me machuca e me tortura, insiste para que eu diga adeus. Ela não me quer aqui. Não fomos preparadas para compartilhar o mesmo mundo, o mesmo corpo. 
No auge do nosso próprio desespero, ela finge-se de amiga e oferece-me uma nova dieta quando olho-me no espelho com relutância, um comprimido a mais quando é madrugada e peso da solidão não me deixa dormir e lâminas afiadas quando preciso me livrar do remorso de ser quem sou. Ela conhece os segredos mais profundos e então me permito ser manipulada pelas suas doces e falsas palavras porque não quero mais lutar, porque tenho medo que ela me conte com um toque de maldade tudo aquilo que quero esquecer.   
Com os maxilares doendo respirando fundo, de cabeça em pé, estou perdendo essa disputa. Eu escolho perder porquê dessa vez, talvez perder signifique liberdade e eu preciso ser livre.  
Livre para ser o que sou, como sou, sem portas trancadas e sem mentiras clichês.  
Livre para chorar mais uma vez.