Um capítulo de Agosto

Sentada na minha cama em um domingo a tarde, vazio e cinza, meus pensamentos fluem entre passado, presente e futuro. Recrio a minha história de diversas maneiras, quase todas com um final feliz. A parte trágica sempre mantenho, as vezes me faz chorar, mas acho que um drama é essencial.
São apenas duas horas e o meu cinzeiro com o rosto da Marylin Monroe já está cheio. Acho que esse é o meu cinzeiro preferido, inclusive porque não lembro de nenhum outro e um amigo me fez perceber como era decadente usar xícaras e canecas ainda com uma sobra de café ou coca-cola. Pessoas bem resolvidas tem um cinzeiro. Parece mais adulto, mais sério.

Aliás, faz muito tempo que sinto que sou adulta. Todas essas cobranças e responsabilidades. As saídas a noite. O sexo. E as drogas, muitas delas. São a melhor companhia para o final de semana. Me fazem acordar, ficar feliz, ficar calma, dormir. Seguindo essa rotina a vida até parece algo fácil, suportável.

A playlist de hoje se divide entre Echo and the Bunnymen e The Cure. São as minhas bandas preferidas para ficar chapada. Trazem a tona algo como uma nostalgia do que não foi vivido, como aqueles dias nos anos 80 que só existem na minha mente. Se ao morrer eu pudesse escolher qualquer época para voltar, nasceria nos anos 60 só para ter idade para ir aos shows das bandas que eu escuto hoje quando elas estavam no inicio do caminho para a fama.

O meu pensamento mais frequente quando estou chapada é sobre o passado. Sempre me pergunto se voltar no tempo seria algo mais no estilo de Efeito Borboleta ou De Volta para Futuro. Gosto de imaginar todas as consequências dessas viagens. Queria um livro com todas as linhas de tempo imagináveis para saber o que seria da minha vida se eu tivesse dito sim a todas as chances que tive de viver algo novo.

Como uma coisa leva a outra, o pensamento sobre filmes me fez lembrar que comecei a assistir pela 10 vez Garota Interrompida. Esse também é dos meus favoritos. Fico perdida entre ser Susanna, Lisa ou Daisy. Acho que sou a fusão das três, mas dependendo do dia sou uma só.
Hoje sou Susana, a garotinha pálida de olhar perdido coberta por fumaça do cigarro esquecido no meio dos dedos, fingindo descansar em um hospital psiquiátrico. Sexo casual em 1960 não é para boas moças. Boa história para escritores.

Ainda não decidi se nos meus dias mais perigosos sou Lisa ou Daisy. As consequências de ser qualquer uma delas é devastadora. No final são três garotas auto destrutivas, reféns dos próprios pensamentos, inadequadas para a sociedade. Doentes por sentirem demais.

Contudo, não vejo tanta diferença na época atual. Valium, Diazepam, Xanax, Rivotril, Ritalina. Tantas formas de manter a calma e ver o mundo um pouco mais feliz. Pílulas de convívio social, ditando em diplomas quem está apto para a vida comum. Tem que saber contar boas mentiras no bar e fingir puritanismo nos almoços de domingos. A menos que você seja homem, então pode contar mentiras o todo tempo. Se elas envolverem mulheres, melhor ainda. Todos vão acreditar.
Num piscar e olhos é noite e eu me perdi nas horas. Meu cigarro queimou e apagou no cinzeiro antes que eu o tragasse, meu café esfriou. Até o clima esfriou e eu continuo vestindo apenas a mesma camiseta velha dos Rolling Stones. Devo tê-la vestido na sexta feira quando decidi que nada me tiraria de casa.

Parte de mim quer acender uma luz, preparar outro café e colocar alguma coisa no microondas. Comida congelada é a melhor opção, a menos que tenha sobrado um pedaço de pizza da noite passada. Eu sempre digo que irei me alimentar melhor, mas a noite chega e eu me acabo no junkie food. Tento aliviar a consciência lembrando que pelo menos parei de comer carnes. Ser vegetariana é um começo.

Queria voltar a fazer dietas, mas estou me controlando porque reconheço que nunca sei a hora de parar. Quanto mais vejo resultado, mais longe quero ir. Tudo começa comigo selecionando o que é comida saudável e depois reduzindo a 1000kcal por dia até chegar em 0, então fico por quase uma semana sem comer. Da última vez fiquei tão paranóica que limitava o meu consumo de água a goles pequenos e em seguida tomava diuréticos. Eu gosto de como sinto que consigo controlar tudo quando estou presa na ilusão de dominar o corpo.

Se não fosse pelo meu computador, eu não enxergaria um palmo na minha frente. Meu quarto com uma pia e uma geladeira no centro da cidade é o esconderijo ideal de fantasmas. Em algumas noites nós até conversamos. Acho que morrer te faz entender algumas coisas que não são tão comuns quando se está vivo. Eu já morri uma vez. Foram todos aqueles comprimidos, sabe? No entanto, não posso sair por ai contando sobre essa desventura. Ninguém acreditaria em mim e achariam que sou louca.

É necessário fingir para poder usufruir de algumas vantagens que a gente tem quando cresce e passa a cuidar sozinho da próprio vida. Poder ter o meu próprio estoque de remédios e um pé de maconha no meu quarto/cozinha/sala é uma delas. A desvantagem é ter que pagar as próprias contas, parece que surge uma nova a cada semana e cada vez maior.

Esqueci de comentar antes, mas hoje é dia dos pais e isso me faz não querer falar mais nada por hoje. Deixo a ideia da luz, do café e do pedaço de pizza de lado e engulo todos os remédios que estão jogados aos pés da cama. Programo o despertador para as 5h da manhã, imaginando ter tempo de fazer ao acordar tudo o que deveria ter feito hoje. Meus dias são esse monte de procrastinações e textos sem muito nexo.

Anúncios

16 comentários sobre “Um capítulo de Agosto

  1. Não sei se tu irá responder isso aqui, ou ao menos ler, mas comentarei do mesmo jeito.
    Eu te acompanho aqui há quase um ano. No começo, apenas por gostar da forma que tu escreve, pois me parece tão real e próximo de mim. Agora, porque eu sei que – apesar de que não sou Ana ou Mia – nós temos muito em comum. As tentativas de suicídio, ansiedade, auto mutilação. Tudo que tu escreve me define de forma assustadora.
    Não, não tenho conselhos à dar, nada relevante a falar. Só estou comentando pois sei que um dia eu faria.
    Não posso dizer que tu fique bem com propriedade, mas espero que sim. Aliás, gostaria de saber de que cidade tu é. Se cuide. Adeus.

    • Eu demoro, confesso, mas sempre leio e tento responder.
      As vezes a gente não precisa de conselhos ou de direções, sentirmo-nos compreendidos é o suficiente. Cuide-se também, menina.
      -obs: Porto Alegre

  2. Sempre leio seus pensamentos, você consegue dizer em caracteres o que jamais consigo formar na minha mente confusa. Não lembro quando foi que comecei a ler seus relatos, ou qual foi o primeiro deles, mas você sempre me faz perceber o quanto eu ainda preciso ir a fundo para por para fora o que há em mim… Gosto da forma que você escreve, seu tom de drama torna a sua dor palpável e sua descrição do cenário do fim de semana me fez voltar aos meus dias trancada dentro do meu apartamento quarto/sala/cozinha/banheiro no centro da cidade de Sorocaba. Acho que no fim das contas, cada uma é um mundo, mas temos tangibilidade entre nossos mundos…
    Não poderia te dar palavras de força porque eu se quer as encontrei para mim, e seria hipocrisia dizer a você o que eu mesma não posso fazer…
    Há muito de poeta em você, e todo bom poeta sofre de alguma forma, e é esta dor que faz com que suas palavras entrem mais profundamente em cada mente adormecida pela rotina…
    Embora leia e releia cada palavra sua, desejo um dia não vê-las e saber que você mudou de rumo, e silencio o desespero que há em você… Mas até lá, serei uma leitora fiel…
    Espero para nós, melhores dias.
    Um forte abraço de quem nunca te viu.

  3. Na azafama monotonica dos meus dias, entre fantasmas, ataques e tudo o resto vou ver o seu blog. Espero que não se ofenda com o que vou dizer porem quando leio os seus textos sinto como se uma calma me invadisse, provavelmente isto e resultado de uma mente torturada e deformada.
    Mas pronto….
    A sua maneira de escrever é deveras impressionante.
    Sabe nem sei o que escrever, não transmitir o que sinto, pois nestas palavras, eu não sinto nada como se elas fossem elegíveis e ninguém entendesse.
    Por isso, peço imensas desculpas caso diga alguma coisa que te magoe pois esse não é o meu objetivo.
    Desculpa….
    Pode achar loucura o que vou dizer, mas sabe a nossa sociedade e tão perversa e não estou a falar no sentido carnal (com isto não pretendo ofender nem magoar ninguém).
    Acho melhor parar de escrever tantas loucuras.
    Obrigada….
    Minna

  4. Fico imensamente feliz em saber que você esta se alimentando melhor. Tenho consciência de que a comida pode interferir no nosso humor. E concordo com a moça acima, você deveria escrever um livro. Pense sobre essa ideia. Um livro publicado talvez faria você um pouco mais feliz. Sinto muitíssimo que seus dias estejam sendo ruins, mas saiba que não esta sozinha. Nunca esteve.
    Uma leitora fiel.

  5. Desculpa, anjo, por ter sumido por um tempo. Eu precisava de um tempo para me encontrar. Ainda não consegui. Boas notícias, diminuí o uso da coca, mas voltei a me exercitar até a exaustão, sou um fracasso. Enfim, chega de falar de mim. Vi sua foto que você postou, está muito linda sabia? Você é forte e continua lutando, estou orgulhosa. Garota Interrompida é um dos meus livros favoritos, junto com Christiane F., Drogada e Prostituida. Eu vejo elas como garotas tão frágeis quanto eu, e percebo que elas são muito mais corajosas que eu, passando por todo o sofrimento, e tentando acabar com eles. Sei o horror que a heroína causa, mas a minha mente só lembra a parte que emagrece horrores. Cocaína, heroína, tranquilizantes, todos acabam com a dor de certa forma, não? Eu já desisti de tudo, não tenho nada a perder, por favor, não seja como eu. Minha sorte é que não existe no Brasil, caso contrário eu estaria muito mais destruída fisicamente do que mentalmente. Como o Hozier diz: I was born sick, but I love it. Você é uma escritora incrível, tem um talento nato. Você é maravilhosa, sabia disso? Com um talento desses, e eu espero que você tenha muito sucesso e que fique bem, e se encontre. 🙂

    • Fico feliz que tenha conseguido diminuir, de verdade!
      Tiveram noites nesse último mês que fiquei lembrando do que tu me escreve, é tão importante para mim… Demoro a responder, mas não deixo de pensar sobre. As vezes até a mim faltam palavras.

  6. Desculpa ter sumido assim, tive que fazer isso, para tentar me encontrar. Ainda não consegui, mas a boa notícia é que eu diminuí com a coca e o álcool. Infelizmente, eu voltei com os exercícios pesados. Desculpa, eu tento lutar e sempre fracasso. O mais engraçado é que quando estamos nos destruido, sempre achamos que isso é avant-garde, e nunca percebemos a nossa própria destruição. Enfim, chega de falar de mim. Vi sua foto, e você está linda. Você é muito linda (por fora e por dentro, sua doçura e sensibilidade afloram quando você escreve). Além de ser super talentosa com as palavras. Eu espero que você tenha muito sucesso, e alegria e coisas boas, você merece, porque você é uma lutadora. Eu vi que você adora Garota Interrompida. Eu o tenho como um dos meus livros favoritos, junto de Christiane F. e “As Meninas”. Todos esses livros contam histórias de meninas que lutam contra essa dor infinita e o desespero. Eu não sei dizer qual delas eu sou. Eu estou num nível de degradação moral e física, que olha para o livro da Christiane, sabe todo o horror que a heroína causou, e ainda assim, deseja experimentar, pois ela pesava 40 e poucos quilos. Que loucura, não? Na miha mente deturpada, seja coca,heroína ou Rivs, vai eliminar a dor. É um dos muitos absurdos que eu penso. Você é muito forte, e eu gostaria de ser, assim como você.

  7. Cade você, ja é quase Outubro e tenho me conformado com seus textos antigos …. Esse ultimo principalmente onde vi muito de mim ali ! Volta logo com mais ….Não aguento mais tanta espera, saudades do seu texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s