Urbânia Diga Adeus

Nesse momento eu te odeio. Te odeio muito porque não consigo te esquecer. Te odeio porque você está em todos os lugares ao mesmo tempo que em lugar nenhum.
Nós falamos de tantas coisas, fizemos tantos planos e você se foi antes de concluirmos tudo.
Você sabia os meus porquês.Você sabia além.
Você sabia que eu precisava de você, que isso jamais mudaria.
Você esteve ali quando não era para estar, esteve quando não tinha mais ninguém.
Você viu meu mundo cair e não me levantou, não até que eu pedisse, simplesmente porque você sabia que eu pediria, e pedi.
E o tempo passou e então eu passei sem dizer adeus e você não ligou porque sabia que eu voltaria, e voltei, mas você não estava mais ali.
Você nunca mais estará ali e há nenhum lugar em que eu possa te encontrar pra consolar minha solidão, nenhum ombro para chorar, ninguém para estar ali. Ninguém para ocupar o seu lugar.
Ninguém com a sua paciência ou com a coragem de dizer que finalmente somos só amigos porque você cansou de me amar. Que o amor da amizade nos cabe melhor. Ninguém para entender os motivos do meu  não. Ninguém para ser quem eu vou sempre precisar. Ninguém para ser o meu melhor amigo.

Tristes Verdades

Eu estou morrendo, digo. Eles escutam e não entendem. Repito com mais firmeza: eu estou morrendo! Eles dizem: todos estamos. Tento explicar: estou morrendo mais rapidamente, restam-me no máximo dois ou três anos- e tomo mais um gole de um vinho caro com um gosto amargo que me dá enjoos.

Desisto de tentar explicar e com pouco equilíbrio vou para o meu quarto segurando cuidadosamente a taça cor de rosa que comprei em Las Vegas. Para ser sincera, não sinto a mínima falta da vida consumista ou dos encantamentos das “fabulosas luzes de Las Vegas”, sempre me senti sozinha lá.

Me jogo na cama e minha cabeça gira, é tudo colorido quando fecho os olhos. Sento devagar, tomo meus  comprimidos noturnos e junto de um oléo concentrado de marijuana e então tudo deixa de fazer sentido. Não durmo. Ligo o chuveiro quente e a espuma do meu cabelo tem um cheiro doce, um cheiro que lembra infância e me leva de volta ao pensamento inicial: eu estou morrendo.

Já vi muitas pessoas em seus últimos anos, semanas, dias… Essa angústia? Essa angústia sou eu. Eu cansada demais para esperar o tempo que me resta. Eu já deveria ter partido.

Por que voltei a comer? Por que sai do meu caminho? Faltava tão pouco…

A recusa do presente

Segurando o choro, abro a torneira o mais quente possível, de modo que a água não apenas queime, mas também torne-se vapor o mais rápido possível. Deixo que a banheira se encha enquanto dispo-me lentamente em frente ao espelho que insisti colocar no banheiro. Ele vai do chão ao teto, divido em três na horizontal e fica na lateral, em frente à banheira.

Peso-me olhando-o fixamente varias vezes ao dia. Este parece um hábito que não irá simplesmente sumir.

“-Quanto você pesa?

-Não lembro [mentira], faz tempo que não me peso[mentira]”

53.100 pela manhã

53.300 alguma hora da tarde

53.300 alguma outra hora da tarde

53.800 -agora.

Respiro fundo e tento relaxar, mas o relógio cardíaco mostra que meus batimentos estão acima de 100bpm.

Seminua, sento-me no chão e espero a névoa de vapor cobrir todo o espelho e formar uma nuvem em cima de mim. Ainda não choro, mas mordo a parte interna da minha boca tao forte que o sangue começa a escorrer pelos meus lábios, porém não ligo, continuo ali sentada, imaginando como seria me ver pelo outro lado do espelho.

Não gosto do tenho que tenho em mente.

Gorda.Gorda.Gorda.

Me jogo na água quente e sinto meu corpo inteiro arder, mas ainda não choro, me mantenho firme focando em toda a dor que sinto. Minha autopunição não deixa mais marcas, exceto pela minha boca ainda não ter parado de sangrar. Se fosse um corte externo, com certeza precisaria de pontos.

Fecho os olhos e aguardo até a água esfriar. Não sei se gosto da sensação, é uma mistura de prazer e dor que não sei explicar.

Tento não olhar para o lado, não encarar o meu carrasco, mas o espelho está ali, já desembaçado e esperando por mim.

Levanto, seco-me e subo na balança: 53.800. Será que eu já odiei o meu corpo mais que isso?

Encho uma garrafa de água, tomo meus remédios e as 8h da noite deito-me para dormir. Sem jantar por hoje.

Não posso retornar ao que era, mas me recuso a continuar assim.

Tenho dito: estou cansada.

Eu sou o oposto de mim mesma.
Quero limpar o meu corpo, deixa-lo leve e livre, quero o que estive prestes a ter –e desisti. Tiro e coloco a roupa, passo de balança em balança procurando diferentes números. Nada muda, eu respiro fundo e seguro o ar até sentir meu corpo fraco. Volto da minha fuga ofegante, limpo as lágrimas dos olhos antes que elas caiam pelo meu rosto e manchem a minha maquiagem feita nos mínimos detalhes: maquiagem de rosto saudável. Falsas bochechas rosadas, batom em tons avermelhados ou rosados e duas camadas de máscaras para cílios. Perfeita para um dia comum, um dia de ser a pessoa que tenta fazer tudo da melhor forma, que oferece o braço para o cego atravessar a rua e espera pelos pais voltarem para casa com o café da tarde preparado em uma mesa redonda e bolos preparados em casa. Devido a tarde livre tudo está em perfeita ordem e todos estão felizes, exceto pelo fato de que tudo é uma bonita farsa para ignorar o fato de que todos estão entediados e cansados a espera de ficarem sozinhos para viverem suas verdadeiras emoções, seus verdadeiros desejos. Eu poderia me masturbar na hora sombria que se segue após eu tirar a louça da mesa enquanto cada um se esconde em algum lugar da casa para aproveitar o tempo a sós, o tempo livre. Para aproveitar as peculiaridades que suas mentes conseguem lhe prover.

Ligo alto o chuveiro e vomito o lanche com facilidade, mais chá do que qualquer coisa sólida facilita e machuca menos a minha garganta, porém o ácido ainda incomoda, queima. Tiro a roupa e não vejo os números diminuírem, parecem sempre iguais, poucas gramas diferenciam-se umas das outras, isso me destrói. Quero deixar essa parte para lá, e meu vício em remédios é a única outra coisa que me dará prazer instantâneo e um pouco mais de calma. Dobro as dosagens mesmo sabendo das consequências do dia seguinte. Queria que fossem medicamentos simples, mas xanax, oxycodona e carisoprodol formam um mix perfeito. Junto de mais um pouco analgésicos e outros antidepressivos que os médicos disseram não ser necessário sequer a metade daquilo que insisto em tomar, tenho a mistura perfeita na minha mão. Deito-me com um baseado aceso, essa é a única “coisa boa”. A maconha ao menos é medicinal. “Medicinal”-eu rio. Tudo o que eu tomo é medicinal, desde os meus melhores drinks (que graça haveria álcool sem opioides?)aos meus melhores aos cocktais pra enfrentar ou esquecer qualquer coisa que o mundo queira me oferecer e eu não esteja afim de ver.

É madrugada quando me peso de novo, mas não entendo os números. Encho a banheira pela metade com água fervente e espero o meu corpo queimar. É um exercício de resistência e de prazer: o prazer da dor me faz esquecer da vida, de tudo. É apenas dor: um sentimento puro. Não levanto até a água esfriar e meu corpo tremer de frio, até meus lábios ficarem roxos.

Saio da água e paro ainda nua frente a janela aberta. Eu quero sentir o vento bater nas gotas geladas que se prendem em mim. Respiro, respiro, respiro. A balança está no chão, apenas guardo-a como quem não se importa.

Eu tenho um dia inteiro pela frente para fingir a alegria que poucas vezes tive acesso. Preferia deitar na minha cama com um abraço apertado, um abraço daqueles que te faz perder o medo de continuar na vida, mesmo que esses abraços me tirem o foco do objetivo da minha existência.
Por favor, tripliquem as dosagens dos meus ajudantes diários. São eles que me mantém aqui, da mesma forma que serão eles a me tirar daqui. A me salvar. O peso de ser quem sou não é medido apenas por números. Não canso de dizer: estou cansada.

Taças de vinho e solidão

Minha mãe me pediu para parar de beber e então eu enchi uma taça de vinho –no café da manhã. Não foi provocação, ah essa altura ela já estava em um dos seus eventos sociais, assim como meu irmão, desde cedo, resolveu curtir a adolescência com seus amigos e viajar. Casa só para mim. Casa vazia.

Eu confesso: não houve um único dia em que eu não bebi até ficar totalmente tonta e então tomar doses exageradas de remédios para dormir. Minha caixa de madeira branca com ursinhos fofos desenhados é repleta de remédios tarja preta. Alguns conseguidos depois de implorar ao médico por horas, jurando não exagerar, outros conseguidos por vias não tão seguras em farmácias ilegais, mas o importante é que eu os tenho para as madrugadas que acordo em pânico sentindo a solidão me prender forte de um jeito que me impossibilita respirar. Então eu acordo, tomo algumas mg, deito, e fico olhando o relógio enquanto o meu corpo sua parar. 3h, 4h, 7h. Cansei, doses dobradas. Acordo no meio da meio da tarde: o que eu perdi?
Meus monstros já foram embora? Posso chorar sem que ninguém me escute? A solidão que chegou a noite ainda não foi embora. Talvez ela seja parte de mim, talvez ela continue a me sufocar, ou talvez eu me sufoque porque não quero mais aguentar.

Outra taça de vinho. Até onde vamos hoje? Exercícios escondidos no banheiro, mentiras clássicas (eu já comi), e dedos arranhados pelos dentes. Não, nenhuma caloria me pertence. Mas e eu? Eu me pertenço?

Quem sabe, até logo

No horário de tomar os meus remédios, mais uma vez me peguei encarando os vidros alaranjados cheios daquilo que pode me tirar toda a dor da vida. Sei que em um minuto de coragem insana tudo o que me faz mal pode desaparecer, assim como eu também.
Mentalizar a minha imagem em um caixão já não me assusta, apenas me traz paz. Em alguns dias de tédio e tristeza, passeio por lojas de roupas tentando escolher o que seria ideal para o momento final, assim ninguém precisaria pensar a respeito.
Eu já tenho os sapatos.
Não há como negar: estou me preparando para morrer, mas aos poucos. Tenho feito o meu melhor dizendo adeus em forma de olá. Deveria ser direito universal decidir quando partir sem que a culpa ou o medo inundassem os pensamentos fazendo-nos acreditar que é possível permanecer na vida apenas por mais um dia, uma semana, um mês, principalmente quando o cansaço contínuo já chegou ao seu limite e a própria solidão escurece até os dias mais ensolarados.
Assim a despedida seria com abraços apertados, promessas de saudades, e um adeus em forma de sorriso e boa sorte -ou talvez – até logo.

Respira, conta, solta

Meu braços e pernas ficam fracos e eu começo a tremer o queixo, mesmo sem sentir frio. Suor escorre pelo corpo todo. Eu vou desmoronar a qualquer segundo. Eu vou explodir. Quero chorar mas as lágrimas estão presas. Quero fugir mas não há como sair de dentro de mim. Eu estou com medo. O mundo está se fechando ao meu redor e eu não consigo respirar.

Esta tudo ficando escuro e eu não consigo me mexer.

Não quero fechar os olhos. Eu acho que vou morrer. Respira, conta, solta. O estômago vazio faz barulho. Ele reclama ou agradece?

Respira, conta, solta. Sem lâminas nas mãos.

O dobro de comprimidos.

Respira, conta, solta. Dói.

Eu acho que vou morrer.

Eu estou com medo.